Gerações se unem para aprender
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terça-feira, 16 de maio de 2006
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
A vontade de ler a Bíblia e acompanhar os hinos entoados nos cultos evangélicos tem sido o combustível de duas mulheres que jamais desistiram de aprender. Izolina Mendes Campos, 95 anos, e sua nora Zoraide Costa Campos, 55 anos, vêm perseguindo o conhecimento há alguns anos, durante as noites dedicadas às aulas de um curso de alfabetização para adultos. Três vezes por semana, elas frequentam a Escola Municipal Moacir Camargo Martins, no Conjunto Parigot de Souza (Zona Norte), mesma instituição onde está matriculado um outro membro da família: Mateus Salustriano da Silva, 10 anos, neto de Zoraide.
Os avanços no estudo são inversamente proporcionais à idade dos três. Enquanto dona Izolina esforça-se para sair da 1ªsérie, Zoraide exibe os cadernos da 2ªsérie e o caçula revela que já está na 4ªsérie. É ele quem ajuda a avó nas tarefas mais difíceis. Eu tento ensinar bem devagarinho. Começo a palavra e ela termina, conta o menino, que se diz orgulhoso de ser bisneto da aluna mais velha da escola. Todo mundo sabe quem é ela, afirma. Além do orgulho, o garoto revela admiração pela persistência da bisavó. Queria ter essa vontade de aprender que ela tem.
Para dona Izolina, algumas letras ainda são um mistério. Sei que ter inveja é pecado, mas eu tenho inveja de quem lê e escreve rápido. Eu não consigo. Vejo meninas novas que lêem de tudo, e eu aqui, nessa idade, sem saber de nada, queixa-se, lembrando que a vida na roça nunca permitiu dedicação aos livros. Aos 8 anos eu já moía cana no engenho para fazer rapadura e açúcar.
A primeira incursão de Izolina ao mundo das letras aconteceu quando tinha 24 anos, logo depois do casamento. Mas não aprendi quase nada, e desisti. Depois de uma vida toda imaginando a sensação de desvendar o sentido dos conjuntos de palavras, ela resolveu arriscar novamente, em companhia da nora. Eu gosto de ir na escola, tenho muitos amigos lá, mas o duro é o frio, revela, referindo-se às noites de baixa temperatura típicas desta época do ano. Apesar das dificuldades, ela já sabe ler e escrever as palavras mais simples, além, é claro, do seu nome. E não desiste: Enquanto vida eu tiver, vou à escola, garante.
A nora, que a incentiva constantemente nesta busca, conta que Izolina sabe mais do que diz. Ela fala que não consegue aprender, mas sempre que a professora faz uma pergunta, ela sabe responder. A dona de casa também revela que os estudos de ambas foram interrompidos algumas vezes, por conta de problemas de saúde de Zoraide, não de Izolina, que tem saúde de ferro. Quando eu não vou, ela também não pode ir, diz.
A história de Zoraide é parecida com a da sogra: Quando eu era criança nunca pude freqüentar escola. Hoje eu já consigo saber os preços na hora de fazer compras, ler e escrever meu nome. Ainda vou conseguir ler de carreirinha, promete, confessando que tem mais dificuldade para decifrar os códigos do que para colocá-los no papel.


