A vontade de ler a Bíblia e acompanhar os hinos entoados nos cultos evangélicos tem sido o combustível de duas mulheres que jamais desistiram de aprender. Izolina Mendes Campos, 95 anos, e sua nora Zoraide Costa Campos, 55 anos, vêm perseguindo o conhecimento há alguns anos, durante as noites dedicadas às aulas de um curso de alfabetização para adultos. Três vezes por semana, elas frequentam a Escola Municipal Moacir Camargo Martins, no Conjunto Parigot de Souza (Zona Norte), mesma instituição onde está matriculado um outro membro da família: Mateus Salustriano da Silva, 10 anos, neto de Zoraide.
  Os avanços no estudo são inversamente proporcionais à idade dos três. Enquanto dona Izolina esforça-se para sair da 1ªsérie, Zoraide exibe os cadernos da 2ªsérie e o caçula revela que já está na 4ªsérie. É ele quem ajuda a avó nas tarefas mais difíceis. ‘‘Eu tento ensinar bem devagarinho. Começo a palavra e ela termina’’, conta o menino, que se diz orgulhoso de ser bisneto da aluna mais velha da escola. ‘‘Todo mundo sabe quem é ela’’, afirma. Além do orgulho, o garoto revela admiração pela persistência da bisavó. ‘‘Queria ter essa vontade de aprender que ela tem.’’
  Para dona Izolina, algumas letras ainda são um mistério. ‘‘Sei que ter inveja é pecado, mas eu tenho inveja de quem lê e escreve rápido. Eu não consigo. Vejo meninas novas que lêem de tudo, e eu aqui, nessa idade, sem saber de nada’’, queixa-se, lembrando que a vida na roça nunca permitiu dedicação aos livros. ‘‘Aos 8 anos eu já moía cana no engenho para fazer rapadura e açúcar.’’
  A primeira incursão de Izolina ao mundo das letras aconteceu quando tinha 24 anos, logo depois do casamento. ‘‘Mas não aprendi quase nada, e desisti.’’ Depois de uma vida toda imaginando a sensação de desvendar o sentido dos conjuntos de palavras, ela resolveu arriscar novamente, em companhia da nora. ‘‘Eu gosto de ir na escola, tenho muitos amigos lá, mas o duro é o frio’’, revela, referindo-se às noites de baixa temperatura típicas desta época do ano. Apesar das dificuldades, ela já sabe ler e escrever as palavras mais simples, além, é claro, do seu nome. E não desiste: ‘‘Enquanto vida eu tiver, vou à escola’’, garante.
  A nora, que a incentiva constantemente nesta busca, conta que Izolina sabe mais do que diz. ‘‘Ela fala que não consegue aprender, mas sempre que a professora faz uma pergunta, ela sabe responder.’’ A dona de casa também revela que os estudos de ambas foram interrompidos algumas vezes, por conta de problemas de saúde – de Zoraide, não de Izolina, que tem saúde de ferro. ‘‘Quando eu não vou, ela também não pode ir’’, diz.
  A história de Zoraide é parecida com a da sogra: ‘‘Quando eu era criança nunca pude freqüentar escola. Hoje eu já consigo saber os preços na hora de fazer compras, ler e escrever meu nome. Ainda vou conseguir ler de carreirinha’’, promete, confessando que tem mais dificuldade para decifrar os códigos do que para colocá-los no papel.

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