Geração videogame descobre o velho pião
Nas ruas, escolas e quadras dos condomínios, a brincadeira ganha espaço; pais pegam carona e revivem os bons tempos
Fotos: Dorico da SilvaBRINCADEIRA DE CRIANÇANão é só comprar e fazer o pião rodar da forma mais criativa possível: a garotada dá um jeitinho de tornar o brinquedo ainda mais atrativo. Para ser original, vale pintá-lo com as cores do clube do coraçãoAs fieiras servem de limites para os rodopios; o primeiro passo é aprender a lançar o pião, mas cada um inventa um jeito de melhorar a brincadeiraBruno Lemos, 11 anos, mostra a habilidade: joga o pião para cima, que cai e gira em sua mão
Lino Ramos
De Londrina
Ninguém sabe explicar direito como tudo começou, mas de repente, um brinquedo meio esquecido na lembrança de nossos avós ganhou o pátio das escolas, ruas e as quadras dos condomínios de classe média. O velho pião já disputa espaço com o skate, televisão e videogames e vem se tornando motivo de verdadeiros campeonatos entre a garotada. A brincadeira de rua sempre foi assim. Chega do nada e depois fica na saudade de quem soube aproveitar o momento.
A Enciclopédia Mirador Internacional ensina que o brinquedo tem várias origens. Exemplares antigos teriam sido encontrados nas escavações de Pompéia. Alguns modelos eram feitos em argila. O pião também teria sido mencionado por filósofos como Horácio e Virgílio.
Na Europa o brinquedo é mais comum na primavera. Já no nordeste brasileiro, é brincadeira de inverno. Um derivado mais recente do pião é a pitorra, brinquedo mais enfeitado que usa uma mola para ajudar no movimento. Também possui perfurações para provocar um zumbido. Na Alemanha o pião é chamado de Kreisel, Top no Reino Unido, e Peón na Espanha, Peonza na América Central e Trompo na América do Sul.
Mas o que importa é que o pião é barato e desperta a criatividade da criançada e de marmanjos. O que importa é rodar o pião da forma mais criativa possível. Para ser original vale pintar o pião, de preferência, com as cores do clube do coração.
Bruno Rafael de Almeida, 14 anos, nunca tinha visto um pião antes e comprou um há quatro semanas, depois que os colegas Pinduca e o Gordinho iniciaram a brincadeira. Comprei um para o meu irmão de oito anos, ele não gostou muito e daí começei a brincar. Meu pai brincou, eu brinco e acho que meu filho vai brincar, acredita Bruno. Segundo ele, no colégio onde estuda o pião é diversão certa no intervalo das aulas.
Gabriel da Silva Senegália, 12 anos, o Pinduca, conta que viu todo mundo rodando pião na escola e aderiu à brincadeira. Gosto de jogar pro alto e catar na mão, esnoba. Ele acedita que a onda começou depois que a TV fez uma reportagem sobre o assunto. Mas o interessante é que a televisão fez a matéria porque havia quem estivesse na brincadeira, resgatada do folclore brasileiro.
Mas jogar o pião pra cima e rodar na mão é com Bruno Camargo de Souza Lemos, 11 anos, o Gordinho o mais habilidoso da turma nessa modalidade. Segundo ele, um professor de história apareceu com um pião na classe falando sobre a brincadeira antiga.
Filipe Campos, 14 anos, prefere o skate mas não larga o pião vermelho. Não tem pista de skate e rodar pião é mais fácil. Demorei dois dias para aprender a pegar o pião na mão, confessa.
O mais novo da turma, Murilo Maiola Araújo, nove anos, tenta as manobras mais complicadas com o brinquedo ancestral. Para obter mais velocidade e pontaria vale passar vela no barbante e conseguir maior aderência ou ter uma fieira (barbante) apropriada. Mas cada um inventa um jeito de melhorar a brincadeira.





