Gente famosa é que se incomoda
Folha -O que o senhor responde aos que criticam a publicidade excessiva de suas ações?
Três -A publicidade é dada pela própria imprensa quando os casos envolvem gente famosa de uma ou outra forma. Acho importante a divulgação, pois reprime a continuidade de atos lesivos. Não adianta correr atrás do leite derramado, temos é que nos antecipar aos acontecimentos. A divulgação faz com que potenciais vítimas destes atos sejam alertadas e evite-se a repetição. Para quem investiga, é uma forma de ter segurança, porque os fatos tornam-se públicos e todos ficam alertas para qualquer eventual represália. E, do que tenho falado, nada está envolto em segredo de Justiça.
Folha -O fato de setores investigados serem poderosos ou influentes é que atrai a atenção?
Três -Claro. Com todo o respeito aos negros e humildes, mas se tudo ficasse em cima de pobres e pretos, como se diz, não haveria alvoroço e, aliás, isto acontece todo dia, com pretos e pobres sendo escrachados. Nos Estados Unidos, há imprensa especializada em cobrir ações da Justiça e isso favorece a transparência, para que as coisas não fiquem só nos bastidores.
Folha -E as críticas de que é o senhor quem procura a imprensa?
Três -Ao contrário, a imprensa é que abre espaço quando há interesse. Senão, não dá bola e acabou. Não está cheio de político procurando vocês toda hora e vocês fugindo? Ocorre que eu atendo a imprensa com o objetivo de explicar para o cidadão que lê jornal, ouve rádio, vê televisão. E se eu achar que há interesse para a ação do Ministério Público divulgar um fato, não vejo problema até em levantar o telefone e ligar para a imprensa.
Folha -Como responder aos que dizem que o senhor não se limita à denúncia, mas julga e sentencia?
Três -Não sou magistrado, não julgo. Se fosse juiz, obviamente agiria diferente, para não ficar impedido no processo. A sociedade me paga para fazer acusação sólida, não de forma leviana e irresponsável como alguns insinuam; qualquer acusação assim, do Ministério Público, seria cassada em tribunais superiores e isso até hoje não ocorreu com nenhuma das minhas ações, porque elas são responsáveis e sólidas.
Folha -E o caso em que o senhor chamou de delinquentes os policiais investigados por extorsão, apesar de não estar concluído o inquérito?
Três -As provas são contundentes e inequívocas. Se eu tenho função de acusar, devo ser incisivo. E, no caso, deveria fazê-lo com mais ênfase ainda, porque tratam-se de agentes públicos. Observo que extorsão não é mais notícia, o que é notícia é repressão à extorsão, por isso o destaque dado ao assunto pela imprensa.
Folha -O senhor não teria generalizado perigosamente ao dizer que policiais vão às rodovias invariavelmente para extorquir?
Três -Sou taxativo. A Polícia Civil vai para as rodovias para extorquir. Ela não tem nenhuma atribuição nem qualificação técnica para atuar em delito ou crime puramente tributário, caso de compristas que possam ter excesso de mercadorias. É o mesmo que a Polícia autuar comerciante por sonegação fiscal.
Folha -O senhor não estaria centrando fogo só na Polícia Civil?
Três -A Polícia Federal tem problemas, mas é a que mais bota agente na rua, e a Polícia Militar não está acima de qualquer suspeita. Mas a situação da Polícia Civil é de absoluto desmando e falta de autoridade. As chefias que não têm conhecimento dos ilícitos e crimes praticados por agentes são barbaramente incompetentes porque não sabem o que todo mundo sabe e, se sabem e não combatem, são coniventes. A sociedade está saturada desta degeneração e de repente vai dizer: isso aqui não serve para nada, vamos acabar com isso. Não existe mais instituição intocável. Na Cidade do México, a população foi às ruas pedir o fechamento da Polícia, dada a situação de corrupção e desmando.
Folha -A legislação não consegue coibir a corrupção no serviço público?
Três -A lei 8.429, de 92, exige do servidor - do mais humilde ao magistrado da República - que prove a origem de seu dinheiro, de seu patrimônio, sob pena de ser submetido a uma ação cível e perder a função. Sinais exteriores de riqueza devem ser esclarecidos. Eu poderia ganhar bem mais que meus R$ 4 mil por mês se atuasse como advogado, mas com meu salário não posso, por exemplo, ter carros de corrida. Se fizer exame rigoroso em cima de policial desfilando com carro novo - e toda a cidade sabe -, não vai sobrar ninguém.
Folha -Como pedir à vítima de extorsão de servidores que os denuncie, se ela passa a correr até risco de vida?
Três -Na verdade, o que há é a construção de um falso temor. As pessoas imaginam que um policial faz e desfaz e acabou. Sei de casos de comerciantes que não executam dívidas de policiais por medo de represália. Essa gente (os policiais) não tem o poder e a influência que querem demonstrar e as pessoas precisam enfrentá-los. Havia algo maior e mais violento no crime organizado que o jogo do bicho no Rio, com capacidade de corrupção, ameaça, aliciamento da Polícia? Até que apareceu uma juíza e liquidou a história.
Folha -O senhor não teme aparecer acima da instituição que representa?
Três -Há uma frase lapidar que diz: pobre da sociedade que precisa de heróis. A sociedade não precisa deles, mas de instituições eficientes em sua defesa. O ideal é que ninguém se destaque na ação e que as instituições naturalmente funcionem. Eu apenas procuro exercer plenamente as funções próprias da instituição a que pertenço. Nos países mais evoluídos, e pego os Estados Unidos como exemplo, o procurador vem e baixa o porrete em quem tiver que baixar, mas tudo deve ser sólido e responsável, e não gratuitamente.





