Walter Ogama
De Londrina
Um homem tem muita história para contar se fez parte da história de um povo. Genecy de Souza Guimarães, 77 anos, é personagem de vários capítulos da história de Londrina, cidade que ele adotou a partir das 17 horas do dia 15 de março de 1950, quando, com 28 anos de idade, chegou ao Norte do Paraná. Nascido em Cantagalo, no Estado do Rio de Janeiro, Genecy veio trabalhar como metalúrgico, uma profissão que na época tinha um mercado em crescimento.
Mas, ‘‘homem de sete profissões’’, como costuma dizer, Genecy também labutou em outros campos. Inclusive na roça – aproveitando a boa fase da cafeicultura – e até como político, quando ocupou vaga de vereador por duas legislaturas (sexta e sétima), nas gestões dos ex-prefeitos Dalton Paranaguá e José Richa. Como trabalhador, ajudou a fundar a Associação dos Trabalhadores da Indústria Metalúrgica de Londrina, em 1952, e foi posteriormente presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, já nos anos 60.
Não foram, porém, somente o lado profissional de Genecy que o tornam, hoje, uma personalidade londrinense. Ontem ele confidenciou que vai tirar do guarda-roupa o seu velho paletó, que será usado na noite desta sexta-feira, 29 de outubro, para uma homenagem que receberá na Câmara de Vereadores de Londrina. Genecy será honrado com o título de Cidadão Honorário, concedido a partir de proposta da vereadora Elza Correia (PMDB) e aprovada por unanimidade pela Câmara.
Funcionário público há cerca de 25 anos, o mais recente cidadão honorário londrinense tem alguns capítulos tristes em sua história. Político rigoroso com a conduta moral e sindicalista severo, Genecy enfrentou na carne os terrores do Regime Militar, que o Brasil enfrentou a partir de março de 1964.
No dia 15 de setembro de 1975, Genecy era vereador pelo extinto MDB (Movimento Democrático Brasileiro). O prefeito era José Richa, do mesmo partido. Na época não vigorava o pluripartidarismo. Existiam MDB ou Arena (Aliança Renovadora Nacional), esta última dando sustenção aos militares no poder.
Genecy tinha um Volks e morava no Jardim Shangri-Lá. Era noite e ele saía para ir à sessão da Câmara. ‘‘Quando coloquei a chave na ignição do carro, vieram e encostaram uma metralhadora no meu pescoço.’’ A época não era de tantos assaltos quanto agora. Os burburinhos sobre pessoas que estavam sendo presas por se opor ao regime militar corriam de um canto a outro do Brasil.
O então vereador emedebista não teve dúvida: estava sendo preso por agentes do DOI-CODI, a polícia política daquele tempo. Não foi bem uma prisão. Na verdade, naquele 15 de setembro Genecy foi sequestrado. A família dele nem ao menos foi avisada. Genecy foi levado para a sede do 30º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Apucarana, e depois transferido para uma prisão em Curitiba. Permaneceu detido por um ano e nove meses e teve entre os inúmeros companheiros de prisão outro londrinense, o trabalhador João Eineck. Ambos sofreram as mais variadas formas de torturas físicas e psicólogicas, onde se incluem o famoso ‘‘pau-de-arara’’, o choque elétrico, o afogamento e o telefone (tapas nos dois ouvidos, ao mesmo tempo).
‘‘Mas foi o João Eineck quem mais foi torturado’’, lembra Genecy. Assim, como tendo que botar a mão numa ferida profunda, Genecy conta, atualmente, poucos detalhes sobre os meses que passou na prisão só porque lutava por um Brasil mais justo para o trabalhador. Ele se desculpa: ‘‘Sofri há pouco mais de um mês um derrame nas vistas. Isso afetou um pouco a cabeça e eu não lembro de muitas coisas’’.
Não importa. Detalhes são coisas pequenas para alguém que, depois da liberdade e tendo se candidatado vereador por mais três vezes, jamais usou a prisão política como argumento para conquistar eleitores. Genecy foi derrotado nas urnas todas as três vezes. Mas ele fala sobre o companheirismo com o amigo João Eineck. ‘‘Depois das sessões de tortura eu permanecia perto do Eineck. Jogava água fria na cabeça dele para reanimá-lo. O João Eineck foi o preso político que estava com a gente que mais sofreu tortura’’, repete, como se estivesse avistando longe, em direção ao passado.
Voltando ao presente e tentando avistar o futuro, Genecy, com sua modéstia, deixa dúvidas. Teria ele ainda vontade de voltar à Câmara de Vereadores de Londrina? A resposta vem enigmática: ‘‘Olha, rapaz. É uma resposta que eu não posso te dar. Depende muito das circunstâncias, não depende só de mim’’. Um pouco de insistência, no entanto, melhora: ‘‘Gostaria, mas não depende só de mim’’, reforça. Atualmente, Genecy está filiado ao PDT.
Caso ele volte para a política, uma companheira inseparável, com quem Genecy está apegada há 33 anos, também voltará à cena, como aconteceu em todas as campanhas eleitorais das quais ele participou: transportando um pesado alto-falante fixado na parte da frente e tendo ainda cartazes colados em seu corpo, ela, a velha Lambreta ano 66 de Genecy, de cores vermelho e branco, voltará a ser o cabo eleitoral do candidato.
A Lambreta, hoje conservada na garagem da casa onde Genecy mora, ainda funciona, depois de passar por duas retíficas de motor. A máquina companheira foi comprada nova, na extinta loja do grupo Hermes Macedo, em Londrina. ‘‘Como sindicalista, por muitas vezes corri de Jataizinho a Maringá com a Lambreta’’, conta Genecy, que mesmo ainda desconhecendo o seu futuro político retorna à Câmara. Para uma homenagem mais do que justa.

PERFIL
Nome: Genecy de Souza Guimarães
Idade: 77 anos
Profissão: aposentado, mas ainda trabalhando como funcionário público
Passado: luta sindical e política, como presidente de sindicato e vereador
Curiosidade: a Lambreta ano 66, comprada zero quilômetro

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