São Jerônimo da Serra - A economia perdeu força às margens da Estrada do Cerne e a consequência lógica para o Hotel e Restaurante Cruzeiro, em São Jerônimo da Serra (a 96 km a Leste de Londrina), seria desaparecer, igual a outros nessa faixa de transição do Norte Velho para o Sul do Estado. Mas, onde quase tudo parou há 40 anos, o hotel permanece, oferecendo a comida típica feita em fogão a lenha.
''Isso aqui só acaba quando eu morrer'', prevê Amine Nader Namur, proprietária há 43 anos, achando que os filhos não darão continuidade. Na realidade, a longevidade do hotel se aproxima de 70 anos, com seis proprietários e várias denominação.
No começo, era a pensão de Dorvalina e Badico Milléo, na década de 30. Fala-se, impropriamente, até numa ''genealogia'' do hotel, que teve a melhor fase entre 1945 e 1963. Nesse período, os preços do café ascenderam espetacularmente, a produção atingiu o clímax e o tráfego rodoviário entre o Norte e o Sul do Estado passava por São Jerônimo da Serra, que se denominou Araiporanga entre 1943 e 1951. Cogitou-se, porém, a mudança da cidade, que podia ser ''despejada'' pela Justiça, por estar dentro da reserva indígena.
Floriza Vieira Franco, a ''dona Zizinha'', e o marido, Basílio Carneiro Franco, ficaram com o hotel entre 1939 e os primeiros anos 50. Então, nasceram os oito filhos do casal, um chamado Jerônimo. A família, que ''nunca havia ganhado tanto dinheiro'', vendeu o hotel ao compadre Gustavo Craf e mudou-se para Londrina (onde Zizinha e Basílio morreram).
O sírio Tufi Paulo Nader (pai de Amine) vendia louças na região e resolveu comprar o hotel em 1960, do então gerente da agência do Banestado, Luiz Lemos, futuro prefeito. Amine tornou-se proprietária em 1963, quando o pai morreu e ela comprou as partes dos irmãos (Paulo, Tufi e Sofia) e passou a administrar com a colaboração do marido, Carmo Namur, e do compadre Telesmar Borges de Sampaio.
Aos 76 anos e bem-humorada, Amine conversa com a clientela, seja lá qual for o assunto, mas sem tomar partido nas controvérsias. ''Eu sei mesmo lidar com o povo'', gaba-se. Comanda cinco empregados e faz o ''controle de qualidade'' na cozinha. A comida típica é uma referência, atraindo muitos viajantes, havendo aqueles que alteram itinerários e marcam encontros no restaurante do hotel, que já recebeu deputados, secretários de Estado e governador.
''A comida não era assim. Fui eu que a inventei'', explica Amine, que serve arroz, feijão, salada, frango frito crocante, ovos fritos, farofa e carne de porco conservada em lata, na própria banha. Bife de boi está condicionado aos dias de abate. Uma das características mais acentuadas é a da carne de porco, frita novamente depois de retirada da lata, em quantidade relativamente grande para não passar do ponto.
Tudo preparado em fogão a lenha. Sabe-se que restam oito milhões desses fogões no Brasil; supostamente, o do Hotel Cruzeiro foi construído em 1939 por Basílio Carneiro Franco, na então ''casa de pensão e botequim de comestíveis e refrescos, em a Praça Barão de Antonina'' (atual Coronel Deolindo), para os quais requereu ''o competente alvará de licença'' (12.10.39).
Era uma casa de madeira que, com as sucessivas modificações desde o tempo de Basílio, foi transformada em prédio misto. Agora, será ampliado o salão de refeições, e as paredes de madeira serão substituídas por alvenaria. ''Tenho muita gente para servir e a freguesia está aumentando'', diz Amine. São 13 quartos em duas alas, com banheiros coletivos no fim dos corredores; e dois apartamentos com banheiro, TV e ventilador. No hotel trabalham Aparecida Camargo Santos, Eliane Rodrigues, Maria dos Anjos dos Santos, Paulo Sérgio Jordão e Ricieri Soares.

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