Na série Harry Potter, o mais famoso bruxinho da atualidade tem dois amigos muito especiais. Não, não estou falando de Rony e Hermione, mas sim dos gêmeos Weasley, que com toda ''gemialidade'' ajudam Harry a combater você-sabe-quem, o maldoso Voldemort. Os meninos são tão inteligentes, e tão endiabrados, que acabam respondendo pelos episódios mais engraçados, e um tanto perigosos, das histórias de Potter. Para a doutora em psicologia clínica pela Universidade de São Paulo (USP) Maria Elizabeth Barreto de Pinho Tavares, a genialidade dos personagens tem muito a ver com a ''gemialidade'' dos dois.
''A comunicação entre gêmeos é muito intensa, mesmo antes de aprenderem a falar. Só pelo olhar eles são capazes de se unir para formar uma equipe ou uma gangue'', assinalou Maria Elizabeth, mãe de gêmeas de 25 anos. Ela defendeu uma tese no final do ano passado, na qual constatou que gêmeos adquirem maturidade precoce, pois são capazes de compreender a situação de ter de dividir a atenção da mãe desde que nascem. Para escrever a tese, ela observou cinco pares de gêmeos, dois de cada sexo e um casal. Teve encontros semanais com as famílias londrinenses, com duração de uma hora, durante o primeiro ano de vida dos bebês, desde a maternidade.
Seu foco foi o complexo de Édipo, expressão usada por Freud e seus seguidores para definir as relações triangulares envolvendo pai, mãe e filho que, a grosso modo, se desenvolvem da seguinte maneira: o filho se sente mais ligado à mãe e tem ciúmes do pai até o ponto em que descobre que não pode ser o parceiro amoroso da mãe. Então procura se identificar com o pai para se tornar semelhante a ele e encontrar uma mulher à imagem e semelhança da mãe. O mesmo ocorre com as filhas.
Sem obter respostas na literatura, a psicóloga constatou, in loco, que as triangulações envolvendo gêmeos vão além do tradicional pai, mãe e filho, podendo acontecer entre pai, mãe e o par de filhos, o par formado pelos pais e cada um dos gêmeos, cada gêmeo e a mãe ou cada gêmeo e o pai.
Segundo a psicóloga, filhos singulares só percebem a presença do pai, e demonstram ciúme dele, aos cinco meses de idade. Antes, a interação íntima é com a mãe. ''Já os gêmeos, desde que nascem disputam a mãe um com o outro. Mesmo que a mãe tenha ajudantes, só ela oferece as tetas. A mãe fica dividida porque tem que atender dois e cada nenê também fica dividido porque, ao ganhar o calor da mãe, sabe que o outro aguarda a vez'', relatou Maria Elizabeth.
Durante a pesquisa ela verificou, entre os cinco pares de gêmeos, que enquanto a mãe cuidava de um - amamentando, trocando fralda -, o outro conseguia esperar. ''Mas se a mãe continuava o chamego, o outro chorava.''
Ainda conforme a psicóloga, gêmeos disputam a atenção da mãe o tempo todo e são bastante competitivos. ''Um explora o corpo do outro como se fosse um objeto e esses comportamentos espontâneos parecem agresivos'', explicou Maria Elizabeth. A dica da psicóloga é para que a mãe esteja sempre muito atenta aos filhos e converse bastante com eles. Ela também chama a atenção para a necessidade de os pais respeitarem a identidade de cada gêmeo. ''Em geral, a união dos gêmeos entre si é maior que a união de cada um com a mãe ou o pai. É comum os próprios pais colocarem os gêmeos num pacote só. Põem nomes parecidos, roupas idênticas e isso não é bom para a criança.''
A tese deverá ser publicada assim como o primeiro livro escrito pela psicóloga, intitulado ''Conversando sobre gêmeos'', no qual ela relata estudos a respeito do número de gêmeos nascidos em Londrina e aborda a construção da identidade e a convivência com eles. Segundo Maria Elizabeth, os gêmeos representam quase 1% da população londrinense. Numa contagem feita em cartórios da cidade foram encontrados mil pares nascidos e registrados entre 1980 e 1995. ''E com o tratamento contra infertilidade, está havendo um boom. A probabilidade de gêmeos em cada tratamento sobe para 25 a 27%, enquanto na população em geral é de 0,8 a 0,9%'', alertou a psicóloga.

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