Geada reacende preocupação com problemas sociais
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segunda-feira, 17 de julho de 2000
Walter Ogama Enviado a Grandes Rios 
Os cerca de 7.900 habitantes do município de Grandes Rios (110 km ao sul de Apucarana), na região do Vale do Ivaí, estão desde a madrugada de ontem sob a ameaça de terem que enfrentar um drama social parecido com o de 1975. Naquele ano, exatamente no dia 17 de julho, uma geada negra atingiu praticamente todas as regiões cafeeiras do Estado e levou à erradicação da maioria das lavouras de café. Também nevou em Curitiba no dia 17 de julho de 1975.
A diferença entre o Paraná de duas décadas e meia atrás e Grandes Rios de agora está, a princípio, na disposição dos cafeicultores de não abandonarem a cultura, conforme prevê o agrônomo da Emater local (empresa de assistência rural vinculada à Secretaria da Agricultura e do Abastecimento), Nelson Menoli Sobrinho. Em 1975, a erradicação cedeu espaço para as lavouras mecanizadas e, em consequência, a expulsão do trabalhador das propriedades rurais.
Foi também o tiro de misericórdia para as grandes colônias das propriedades de café, onde famílias inteiras tiravam seu sustento e até acumulavam economias para, no futuro, deixarem a condição de empregados e passarem a proprietários de terra. Mas, ao contrário, a maioria teve que tomar o rumo das periferias das cidades, onde ocuparam favelas e contribuiram para a proliferação dos bolsões de miséria.
Agora, em Grandes Rios, que na madrugada de ontem enfrentou o seu pior dia do atual inverno a temperatura na relva desceu a 2 graus negativos e 70% do café que seria colhido no ano que vem foi prejudicado , o que se experimentava, e com muito sucesso, era o inverso. O município, segundo o agrônomo Menoli, entrou na nova tecnologia da cafeicultura paranaense em 1992, com o plantio adensado espaço entre as plantas de 1,5 metro por 1 metro e adotando variedades recomendadas pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Junto, implantou e fortaleceu um esquema de produção que, além de beneficiar o proprietário da terra, também permitia às famílias parceiras a possibilidade de participar da cafeicultura.
Assim, Grandes Rios tem hoje 366 propriedades cafeeiras, para um total de aproximadamente 850 produtores de café, conforme os números da Emater. A lavoura cafeeira ocupa área de 3.150 hectares e despontava como a principal atividade econômica do município. Em segundo lugar vinha a pecuária leiteira, mas uma comparação do agrônomo Menoli mostra que entre uma e outra atividade, a do café seria a mais promissora. Segundo ele, uma safra de produção média de café em Grandes Rios equivaleria a 8 anos de produção de leite em termos de geração de riqueza para o município. A média de produção diária de leite é de 15 mil litros por dia.
Outra informação preocupante é sobre a dependência da população em relação ao café. Segundo o agrônomo, 41% dos habitantes de Grandes Rio dependem diretamente da cafeicultura. Cada um dos 366 proprietários de terras tem pelo menos duas famílias parceiras vinculadas às suas áreas. A parceria funciona no esquema de 40% de lucro para o parceiro e 60% para o proprietário. Na maioria dos casos, o primeiro entra só com a mão-de-obra e o segundo dá a terra e os insumos necessários para a produção.
Na manhã de ontem, Menoli percorreu com a reportagem da Folha algumas das propriedades atingidas pelas geadas da madrugada de ontem. Lavouras que tinham escapado das geadas de quinta-feira passada desta vez foram atingidas pelo fenômeno. Segundo o agrônomo, um levantamento preciso sobre as perdas só será possível estar concluído no fim da semana. No entanto, com uma simples observação no horizonte tomado por pés de cafe com as folhas negras, ele não teve dúvidas: Perdemos, no mínimo, 70% do café que seria colhido no ano que vem. Essa produção poderia chegar a 105 mil sacas de café limpo no município, com a média elevada prevista de até 35 sacas por hectare.
Enfrentamos um ano de safra ruim e dois anos de preços baixos. A redenção poderia ocorrer na próxima safra, de 2001. Mas com os efeitos das geadas da madrugada de ontem, o que eu posso dizer é que teremos mais dois anos de resultados ruins. Será difícil de aguentar, afirma Menoli, voltando sua atenção não somente ao campo, mas para a avenida de duas pistas que atravessa a cidade e onde pequenos comerciantes, numa manhã de frio, se dedicam à limpeza de seus estabelecimentos por falta de clientes para atender.


