São Paulo - A expectativa se cumpriu. A 9 Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas,Bissexuais e Trasgêneros) reuniu ontem cerca de 2 milhões de pessoas e deixou a Avenida Paulista interditada durante 17 horas. Parceria Civil já! Direitos Iguais: nem mais nem menos'', foi o lema do evento este ano consagrado ao direito de união civil dos homossexuais. Calcula-se que 400 mil turistas participaram da festa organizada pela Associação da Parada Orgulho GLBT e que reuniu gente de todo o País. A previsão era que a manifestação, que começou às 13 horas, terminasse às 22 horas. Personalidades, artistas e políticos bateram ponto no evento que, afinal, também é 'palanque' de várias causas.
A ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), notória simpatizante do movimento gay, compareceu para fazer sua campanha eleitoral ao governo do Estado. Vestindo camisetas brancas com a inscrição em vermelho ''Marta 2006'', cerca de 20 militantes ''lançaram'' a candidatura da petista.
Questionada pelos repórteres se sua presença na parada gay tinha interesse eleitoral, Marta negou (''não vou falar disso, vim aqui para outra coisa''), disse que sempre participou do evento (''o povo brasileiro tem cada vez mais consciência'') e que seu objetivo é ''lutar contra a discriminação''.
Marta estava acompanhada do seu cabeleireiro Celso Kamura e de José Genoino, presidente do PT. A ex-prefeita subiu no trio elétrico da boate ''The Week'', sem a presença do marido Luis Favre. Na chegada, participantes gritaram e aplaudiram ''Marta, eu te amo''. Ela acenava para a multidão, repetindo ''eu amo vocês'' e indicava com os dedos o formato de um coração. Sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo, Marta comentou que seu projeto de lei completou dez anos, sem nunca ter ido a plenário. Houve apenas discussões. Ela disse ser ''importante'' que o projeto seja aprovado, pois ''lei é lei'', embora não haja no Congresso uma data para a votação do tema.
Já o prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), fez uma passagem relâmpago e burocrática na abertura da parada. Ele fez um discurso que durou menos de dois minutos. Questionado pelos jornalistas se apoiava o projeto de união civil entre pessoas do mesmo sexo, o prefeito desconversou. A reação do público também foi morna. Após sua fala no palco montado em frente ao prédio da Gazeta, Serra não foi nem aplaudido. O prefeito disse que São Paulo respeita as diferenças. Vestindo uma camisa social, sem gravata, Serra foi chamado ao palco pela apresentador de TV Astrid Fontenelle por volta das 12h30. ''São Paulo é uma cidade que tem os braços e a mente abertos à diversidade'', disse o prefeito, que chegou ao evento acompanhado do secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania Hédio Silva Júnior.
Assediado - O ator Bruno Gagliasso, 23, que interpreta um homossexual na novela ''América'', foi bastante assediado por homens e mulheres ao chegar à avenida Paulista. Ele entrevistou participantes para o quadro ''Repórter por um dia'', do ''Fantástico'', que seria exibido ontem à noite na TV Globo. Protegido por um batalhão de seguranças, o ator estava vestido de calça e camiseta. Gagliasso disse que se sentia ''muito honrado'' por estar na parada ''não só como ator mas como ser humano''. Foi a primeira vez que ele participou do evento. ''Acho que todo mundo tem o direito de amar.'' Na novela ''América'', ele interpreta o personagem Júnior, que esconde da mãe o fato de ser homossexual. Em recente entrevista à reportagem, ele disse que evitou compor um personagem caricato, fez pesquisa de campo com visitas a ambientes gays, leu livros como ''O Amor Companheiro'', de Francisco Daudt, e viu filmes como ''Morte em Veneza'', do cineasta italiano Luchino Visconti.
Mas a polêmica fica ainda por conta de uma declaração do prefeito de São Paulo, José Serra, que pretende acabar com as manifestações de qualquer gênero na avenida Paulista. O problema é que sempre que há algo a comemorar ou protesto a fazer, é para lá que se dirige a turba. De caras-pintadas a professores e desempregados dos bingos, a Paulista já recebeu toda sorte de reivindicadores. Os organizadores da ''maior Parada Gay do mundo'' já estudam outro local para a festa, mas não querem nem falar no assunto agora. ''É cedo'', diz Reinaldo Pereira Damião, presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT. Só não admitem o sambódromo. ''Não é carnaval, desfile ou show. É manifestação política da sociedade, não pode ser confinada'', diz Damião.
A festa celebra a diversidade com alegria, mas tem um objetivo político: faz dez anos que o projeto de parceria civil está parado. Tanto o original, da ex-deputada e ex-prefeita Marta Suplicy (PT), quanto o substitutivo de Roberto Jefferson (PTB-RJ) que trocou parceria por união civil. Desde 1995, não se vota nem se discute o projeto. Os grupos gays de São Paulo estão lançando campanha para recolher mais de 1.220 assinaturas de pessoas que apóiam a criação de direitos civis para os gays. Qualquer pessoa pode tirar cópias (pelo site www.paradasp.org.br), espalhar listas e votar. Esse número representa 1% do total de eleitores no Brasil e é suficiente para obrigar o Congresso a votar.

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