Em um período de três anos, 19 gatos e cachorros mortos, em duas residências de uma mesma rua. O saldo macabro é resultado de uma espécie de operação de extermínio que acontece silenciosamente em vários bairros da cidade. Um deles é o Jardim Champagnat (Zona Oeste de Londrina), onde a maioria das vítimas é de gatos. Vítimas da ingestão de iscas com venenos proibidos, como os conhecidos ‘‘chumbinho’’ e ‘‘mão branca’’, eles morrem por insuficiência respiratória, crises de convulsão e sangramentos no tubo digestivo.
  A comerciante Marisa Meneguetti não se conforma com a perda de seres que lhe são tão preciosos. O último gato morto havia sido presente de casamento. Antes, outros 12 foram envenenados. ‘‘Não posso acusar ninguém, embora tenha desconfianças. É uma crueldade. Certa vez perdemos cinco gatos de uma só vez. Entramos em desespero’’, conta a comerciante, que sempre gostou de animais. Ela mantém 10 gatos e quatro cães em sua residência. ‘‘Nunca comercializei nenhum deles’’, garantindo ainda que todos os animais são vacinados e castrados.
  Marisa afirma que nunca recebeu reclamações por parte dos vizinhos. ‘‘Meus bichos não incomodam, ficam apenas no quintal. São de minha propriedade, eu cuido bem e dou alimento a todos eles, ninguém tem o direito de matá-los.’’ A comerciante revela que a maioria foi morta à noite e nos finais de semana, ‘‘quando o socorro é mais difícil’’. Além dos laudos do Hospital Veterinário atestando morte por envenenamento, ela exibe boletins de ocorrência. ‘‘Os policiais vieram até aqui, foram de casa em casa mas não encontraram provas.’’
  Ela critica a facilidade com que as pessoas conseguem comprar venenos, embora sejam proibidos, e a falta de uma legislação mais rigorosa para proteção dos animais. ‘‘Os proprietários de animais têm várias obrigações, mas quando eles se vêem ameaçados, não encontram respaldo’’.
  A lei nº 9605/98, que trata de crimes ambientais, prevê detenção de três meses a um ano e multa para quem praticar abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais, entre eles os domésticos ou domesticados. Em caso de morte do animal, a pena é aumentada de um sexto a um terço.
  Marisa não é a única a viver este drama na Rua Guarulhos. O casal Carlos e Adelaide Woczinski já viu quatro gatos e um cachorro morrerem envenenados. A última morte foi em 15 de março. ‘‘Nunca aqui no bairro alguém me falou que não gosta de gatos, mas já fizeram denúncia para a Vigilância Sanitária, que veio na minha casa e não encontrou nada irregular’’, conta Adelaide. Hoje a família ainda mantém cerca de 20 gatos e três cães. O casal se reveza na limpeza da residência e cuidados com os animais.
  Para seo Carlos, um militar reformado que caminha diariamente com os cães, a origem da falta de tolerância com os animais está no excesso de tecnologia do mundo atual. ‘‘Parece que com essa história de computador para tudo, as pessoas estão muito longe da natureza. Qualquer latido de cachorro incomoda.’’ A preocupação do casal é com o uso indiscriminado de veneno tão perigoso. ‘‘Por enquanto estão envenenando animais, quero ver quando começar a morrer gente’’, dizem.

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