Garotos 'se viram' para conseguir sair de casa
Garotos se viram para
conseguir sair de casa
Nas ruas de Curitiba, os garotos de programa parecem ter medo da imprensa. Um pouco tímidos com o contato com as máquinas fotográficas, eles evitam dar entrevistas. Mas, com um pouco de tato, acabam contando como vivem nas esquinas centrais da cidade e revelam sonhos e ansiedades. Fazer programas já foi fácil. Agora temos que ficar horas esperando por um cliente, afirma Claudinei, 18 anos.
Não é raro perceber a presença de menores nas esquinas das ruas Jesuíno Marcondes e Voluntários da Pátria. Junior, de 17 anos, começou a se prostituir aos 15 anos. Saí de casa com 11 anos porque tinha problemas com meu padastro, conta. Ele resolveu morar na casa de uns amigos e tinha que se virar como podia. Entrei nisto porque é uma forma mais fácil de ganhar dinheiro. Temos clientes de todos os tipos: policiais, padres, pastores, promotores, afirma. O vício também foi um fator decisivo para que ele resolvesse entrar na prostituição. Fui viciado em crack e cocaína. Tinha que sustentar estes vícios, conta.
Claudinei, amigo de Junior, diz que resolveu ser garoto de programa quando tinha 15 anos. As pessoas nunca perguntavam minha idade e quando eu contava, elas nem ligavam, alega.
Jean, conhecido como o pai dos michês, iniciou na prostituição aos 9 anos. Hoje, com 23, é casado com um travesti, trabalha como caminhoneiro e não deixa as ruas. Só vou parar quando morrer assassinado ou de Aids.
Quando tinha apenas 3 anos, Jean foi abandonado na porta de um orfanato. Ele cresceu na rua, apesar de ter sido adotado, como engraxate. Aos 9 anos, ele teve seu primeiro relacionamento sexual. Um cliente me ofereceu muito dinheiro para ir para a cama com ele. Fui, diz. Como michê, Jean conseguiu comprar dois carros, mas gastou tudo com as drogas. Isto é muito triste. Eu cheguei a assaltar os meus colegas para comprar a cocaína, conta. Ele ainda faz shows em despedidas de solteiro e dança num clube de mulheres.
Marcus, de 29 anos, é um dos garotos de programa mais velhos da redondeza. Há dois anos faz michês todos os dias, nas ruas e em saunas. Todo dinheiro que ganha, gasta na prostituição e com bebida. É dinheiro imundo. Gasto com prostituição e álcool, conta. Não faço isto por prazer. Faço apenas por dinheiro, um dinheiro que me é maldito, desabafa. (L.P.)





