O portador de deficiência mental Samuel Silva Xavier, de 18 anos, é mantido preso em casa pelos pais, o desempregado Amaro Silva Xavier e a dona de casa Antônia da Silva Xavier, ambos com 53 anos. A família mora numa casa de pouco mais de 30 metros quadrados na favela do Jardim São Caetano, em Umuarama. A casa tem telas de arame nas janelas e correntes com cadeados nas portas.
Segundo Antônia, Samuel não pode ficar solto, senão foge e quebra tudo o que encontra pela frente. Filho único, ele vive confinado desde que começou a andar, com um ano e meio de idade. A mãe cuida do filho 24 horas por dia e também passa horas trancada com ele em casa, fazendo-lhe companhia.
A casa de lajotas tem apenas três cômodos e um quintal minúsculo com aproximadamente três metros de comprimento e dois de largura, cercado por um muro de quase dois metros de altura. Samuel passa os dias numa sala vazia, onde Antônia mantém apenas um colchão no chão. Como o adolescente quebra tudo, a família quase não tem móveis. No quarto, existem apenas duas camas e um guarda-roupa quebrado. A cozinha tem entrada independente e a porta fica o tempo todo trancada com cadeado. Em todos os cômodos por onde Samuel circula, lâmpadas e interruptores foram instalados no teto com grades de proteção.
Portador de deficiência mental grave, Samuel sofre de esquizofrenia, distúrbio responsável pelo comportamento agitado. Ele, às vezes, torna-se agressivo e dá muito trabalho. Com frequência, Samuel passa a noite acordado, andando de um lado para outro, gritando ou cantarolando. Os vizinhos reclamam que, nessas noites, também não conseguem dormir.
O psiquiatra Sebastião Maurício Bianco afirmou que a melhor alternativa para o adolescente seria uma internação permanente, mas os asilos psiquiátricos estão sendo extintos e é muito difícil conseguir vaga. O médico ressalta que Samuel poderia ter uma vida melhor junto à família, se recebesse o tratamento adequado, intercalando períodos de internação na clínica e outros em casa.
Segundo Bianco, o maior problema é justamente a família. Os pais são analfabetos e muito pobres. Por falta de condições financeiras e esclarecimento, não cumprem as orientações médicas. Antônia também tem problemas mentais e já esteve internada várias vezes. Bianco disse que Antônia faz questão de manter o filho preso em casa, totalmente dependente, ‘‘crente que está fazendo o melhor por ele’’.
Diretor da clínica psiquiátrica Santa Cruz, Bianco diz que Antônia ‘‘dá muito trabalho’’ quando Samuel está internado, atrapalhando os procedimentos médicos e insistindo em levá-lo para casa. Até hoje, Samuel ficou internado apenas três vezes. A última foi em janeiro, quando a própria mãe pediu o internamento porque ele estava incontrolável. ‘‘A clínica poderia internar Samuel periodicamente por até três meses, mas nós evitamos porque Antônia cria muitos problemas e prejudica o tratamento dele.’’
Segundo Bianco, o comportamento de Samuel muda quando ele fica internado na clínica. Convive bem com os outros pacientes, não destrói nada e até se alimenta e toma banho sozinho. De acordo com o médico, pacientes como Samuel não conseguem se integrar à sociedade, mas não precisam ficar presos. ‘‘Com o tratamento certo, podem se tornar mais calmos e até relativamente independentes.’’

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