Um garoto de 14 anos, Paulo Henrique Gomes, foi assassinado na madrugada de ontem, em Londrina, com mais de 20 facadas. O crime aconteceu nas proximidades do mocó (barracão abandonado usado por meninos de rua e adultos para abrigo) da Avenida Duque de Caxias, esquina com a Rua Belém (área central).
Paulo Henrique era viciado em cola de sapateiro, crack e outros tipos de droga, segundo o Conselho Tutelar. Ele começou a se viciar há dois anos, conta a mãe do rapaz, a vendedora ambulante Ivanilde Cristina Gomes, 30 anos. ‘‘Ele ficava uns dias em casa e outros no mocó’’, diz. Paulo Henrique era o filho mais velho de Ivanilde, que tem ainda outras quatro crianças. Ela mora no Jardim Ideal (zona leste).
Josoé de CarvalhoDorA mãe Ivanilde: ‘‘Meu filho ia voltar a estudar’’Ivanilde não via o filho desde a semana passada e ficou sabendo da morte ontem de manhã, quando estava ouvindo o noticiário do rádio. Ela foi em seguida ao Instituto Médico Legal (IML), onde reconheceu o corpo de Paulo Henrique. ‘‘Já que eu não posso ter ele de volta, eu quero justiça e que a polícia descubra quem matou’’, diz. O corpo do menino está sendo velado na capela do Cemitério Jardim da Saudade (zona norte) e será enterrado hoje às 8 horas.
A vendedora diz que não desconfia de quem possa ter cometido o crime. ‘‘Ele nunca falou que estava sendo ameaçado’’, observa. Segundo ela, o filho vivia nas ruas porque gostava. ‘‘Em casa nunca faltou nada, ele sempre foi bem tratado’’, afirma.
Ivanilde conta que já tentou internar o filho em clínica de desintoxicação, mas não conseguiu. Mesmo sendo viciado e vivendo nas ruas, segundo ela, Paulo Henrique tinha concordado em voltar a estudar. ‘‘Hoje (ontem) mesmo eu estava com os documentos dele prontos para fazer a matrícula na escola do Violin (conjunto na zona norte)’’.
Josoé de Carvalho‘Quero viver’Paulo esteve em encontro que discutiu a vidaA presidente do Conselho Tutelar de Londrina, Ana Regina Chepak de Souza, informa que o nome de Paulo Henrique estava - junto com os de outros 23 adolescentes - numa lista de encaminhamento a clínicas de desintoxicação em outras cidades. Segundo ela, a internação depende da liberação de verbas da prefeitura. O pedido do conselho foi feito há um mês e meio e Ana Regina diz que o total solicitado à prefeitura foi de R$ 16.540,00.
Ana Regina informa que Paulo Henrique tinha passagens pela polícia e diz não saber se ele vinha sofrendo ameaças. Outros meninos que estão na lista, afirma, já receberam ameaças de morte.
Paulo Henrique havia participado, na semana passada, em Brasília, do 5º Encontro Nacional de Meninos e Meninas de Rua, cujo tema foi justamente a vida - ‘‘Quero viver e não sobreviver’’. ‘‘Foi uma ironia. Ele passou uma semana longe das drogas e, dois dias depois de voltar, é morto’’, observa o coordenador estadual do movimento, Márcio Filla.
Segundo Filla, Paulo Henrique participou das oficinas de trabalho, entre elas, a de argila. ‘‘Trabalhando com o tema vida, ele fez uma manjedoura com Nossa Senhora e Jesus Cristo.’’
Representantes do Conselho Comunitário de Segurança estiveram reunidos, ontem à tarde, com o presidente da Câmara Municipal, Adalberto Pereira da Silva (PFL). Foram solicitar a participação dos vereadores no processo de combate à violência e ao crime e uma lei que iniba o abandono de imóveis. ‘‘Esta reunião já estava agendada. Não ocorreu em virtude da morte de Paulo Henrique’’, enfatizou o presidente do conselho, o imobiliarista e advogado Jorge Coimbra. Ele disse que apresentou ao presidente da Câmara, relatório da Polícia Militar que aponta a existência de 39 mocós na cidade.
‘‘Infelizmente o problema dos mocós não é novo. Entretanto, as políticas públicas não tem sido eficazes. É necessário que todos os segmentos da sociedade se mobilizem para equacionar essa questão’’, aponta o presidente do Conselho Comunitário de Segurança, cobrando também a participação dos vereadores.Mario Cesar‘Mocó’Crime aconteceu nas proximidades da casa abandonada que abrigava menores e adultos viciados em drogasLucilia Okamura

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