Era 22 de agosto, um domingo de sol, tempo quente, apesar de ser inverno. Um dia propício para uma pescaria. Vinicius Sampaio Crosxiati, de 12 anos, e o tio, Reinaldo Medeiros Sampaio, de 36 anos, saíram para pescar, como sempre faziam nos dias de folga.
O barco a motor tomou o rumo de Primeiro de Maio (61 Km ao norte de Londrina). No local escolhido, pararam no barranco e começaram a pescar. O colete salva-vidas ficou no barco, que começou a se afastar da margem.
Vinicius alertou o tio, professor de educação física, 1,80m, 100 quilos, bom preparo, que pulou na água para puxar o barco de volta. O barco já estava a uns 20 metros da margem e quanto mais Reinaldo nadava, mais o barco se afastava.
A mais ou menos quatro metros do barco, o inesperado. Reinaldo começou a sentir cãimbra nas pernas. As dores eram tão fortes que o impediam de se mover. ''Foi aí que pensei: eu alcanço o barco, seguro na borda, descanso um pouco e consigo subir nele''.
A previsão não se confirmou. O choque térmico do corpo quente com a água fria provavelmente fez as cãimbras aumentarem, e Reinaldo usava apenas os braços para se manter na água. ''Não consegui alcançar o barco e resolvi voltar''. A surpresa foi a distância da margem, quando olhou para trás. ''Estava a uns 80 metros da margem. Desesperei''.
Foi quando Reinaldo afundou pela primeira vez. ''Engoli muita água e me apavorei''. Afundou pela segunda vez e o pavor aumentou. '' Pensei: estou aqui no meio da água, sem ninguém. Não imaginei que meu sobrinho iria conseguir me ajudar''.
Na terceira vez que afundou, Reinaldo conta que se entregou. ''Não conseguia me mexer. Mentalmente pedi a Deus que não me deixasse morrer. Lembrei de minha filha de oito meses, da minha mulher, da minha família e do meu pai, que já faleceu'', recorda, emocionado.
Da margem, Vinicius conta que gritava, desesperado. ''Vi que ele se debatia e quando afundou pela pela terceira vez, não voltou. Foi aí que pulei na água e saí nadando. Nem lembro como cheguei lá'', conta Vinicius, que fez apenas três meses de aula de natação.
Reinaldo fala de uma força que, sem explicação, o levou de volta para cima. ''Já estava me desligando, mas quando percebi estava na superfície de novo. Escutei meu sobrinho gritando que já estava perto.''
Reinaldo conseguiu boiar e o sobrinho começou a difícil tarefa de levá-lo até a margem. Colocava o tio na direção certa, mas a 20 metros da margem novamente Reinaldo afundou, desta vez, no desespero, agarrando a camiseta do sobrinho, que afundou junto.
''Estava consciente e percebi que afogaria meu sobrinho também. Foi quando o soltei''. O menino agarrou o tio pelo pulso e o trouxe de volta à superfície, conseguindo chegar até a margem.
Ali, com a orientação do tio, aplicou os primeiros socorros, fazendo com que Reinaldo expelisse boa parte da água que havia engolido. E começou a pedir ajuda. ''Depois disso eu chorei. Comecei a tremer, mas fiquei feliz por ter conseguido trazer meu tio de volta''.
Reinaldo conta que, enquanto o sobrinho gritava, pedindo ajuda, ouvia o choro dele. ''Acho que só então ele teve noção do que realmente aconteceu''. Para Reinaldo, a sensação foi de ter nascido de novo. ''Acredito que Deus utilizou meu sobrinho para me salvar. Para mim, ele é meu anjo''.
Vinicius não se sente um herói. Acredita que teve que passar por essa situação. ''Foi uma experiência de vida. Não pensei em nada e quero voltar a pescar normalmente''.

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