Simone GirotoOs equipamentos foram usados pelas mulheres, poucos homens aderiramCAMPO MOURÃO - A Prefeitura de Campo Mourão repassou anteontem luvas, máscaras e botas para 40 pessoas que sobrevivem garimpando o lixão na Vila Guarujá, a cinco quilômetros da cidade. A entrega dos equipamentos faz parte do programa Viva Vila, lançado há cerca de um mês pelas secretarias municipais do Bem Estar Social e da Agricultura e Meio Ambiente. A distribuição, no entanto, não animou as famílias que trabalham no local.
Elas reclamam da redução do horário do garimpo e da proibição de levar os filhos para ajudar no serviço. Também não sobram críticas aos próprios equipamentos. ‘‘As luvas são grandes demais e essa máscara deixa a gente sem ar’’, reclama uma mulher que pede para não ser identificada. ‘‘Só as botinas ficaram boas’’, completa. A Folha constatou ontem que apenas as mulheres estavam usando os equipamentos. Entre os homens, a adesão foi mínima.
‘‘A Prefeitura não devia impedir o nosso trabalho à tarde’’, reclama o garimpeiro Ivo Barbosa, 40. Desde que o programa entrou em vigor, o Município disciplinou o horário para a ‘‘garimpagem’’ das 7 às 14 horas. A partir daí, tratores da Prefeitura fazem o aterramento dos resíduos. ‘‘Levamos prejuízo’’, lamenta Barbosa. Ele mora na Vila Guarujá e trabalha no lixão há mais de 20 anos. É ajudado por um filho de 16 anos que parou de estudar.
Eni de Lourdes da Silva, 36, é mãe solteira de cinco filhos e trabalha no lixão desde os 11 anos. O filho mais velho tem 12 anos e foi proibido de trabalhar no lixão. ‘‘A Prefeitura quer que ele vá para a escola, mas ele sabe que precisa me ajudar para ter o que comer em casa’’, diz. Sem poder trabalhar, o filho fica em casa cuidando dos irmãos menores. Ele não estuda.
Comida A presença de crianças no lixão (muitas brincando e dormindo no local) deixou de ser cena comum. A retirada delas foi a primeira medida tomada pelo Viva Vila. As crianças foram matriculadas na creche e na escola do bairro. Uma das metas do programa era a eliminação do trabalho infantil, justamente para acabar com a exploração dos menores por suas famílias. Um funcionário passou a acompanhar o dia-a-dia das famílias que dependem do lixo.
Eni era uma das poucas garimpeiras que trabalharam ontem utilizando as botas, máscaras e luvas. Mesmo assim, ela não poupou críticas à medida. ‘‘Não adianta dar esses equipamentos porque a gente continua comendo muita coisa que acha no lixo’’, ressalta. ‘‘Seria melhor se a Prefeitura desse uma cesta básica’’. A garimpeira também não acredita que faça mal trabalhar no lixo. ‘‘Estou aqui há 25 anos. Já estou acostumada’’.
O material separado pelos garimpeiros é vendido para atravessadores que mantêm ponto no local. Ninguém consegue receber mais do que R$ 3,80 por dia. Eni de Lourdes da Silva, por exemplo, fatura uma média de R$ 2,00 diariamente.

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