Garimpeiros aumentam ritmo para garantir o sustento
A decisão judicial que determina a retirada das pessoas do lixão de Ponta Grossa fez os garimpeiros acelerarem o ritmo de trabalho ontem no local. Eles estavam recolhendo materiais recicláveis que garantam uma reserva financeira para quando entrar em vigor a proibição da garimpagem de lixo, o que deve acontecer em 15 dias. Aceleramos o serviço para ter um mês a mais de sustento, disse Angela Ribeiro, 51 anos.
Muitos trabalhadores estavam revoltados com a sentença do juiz da 2ª Vara Cível, Fábio Marcondes Leite, proferida anteontem, que obriga a prefeitura a cerca a área do aterro sanitário e construir guaritas para evitar a entrada de garimpeiros. A decisão atende solicitação do Ministério Público, em ação ajuizada em 1999. Não estamos fazendo nada de errado aqui. Só queremos garantir o sustento de nossas famílias, argumentou Gilberto Oliveira, 23 anos, pai de duas filhas. Por mês ele consegue retirar cerca de R$ 500,00 por mês do lixão. Antes de garimpar, ele era servente de pedreiro e seu rendimento mensal não passava de R$ 280,00. Se eles acham que um trabalho honesto não está certo, então vamos colocar um 38 na cintura para garantir o pão e o leite dos nossos filhos, reclamou.
Angela Ribeiro, que é uma espécie de líder dos garimpeiros, demonstrou mais mágoa e preocupação do que revolta. A vida da gente já não é fácil e sempre tem mais alguma coisa para complicar. A gente quer trabalho e não esmola. Uma cesta básica não resolve, afirmou. Ela acredita que a criação de uma cooperativa de lixo reciclável resolveria o problema. Mas tem que ser com um pagamento de no mínimo dois salários, adiantou. No lixão, ela e o marido conseguem garantir três salários por mês. Dá até para pagar telefone, orgulha-se. Angela já foi cozinheira e enfermeira, mas quando a legislação exigiu concurso para continuar na atividade hospitalar ela perdeu o emprego. Sua escolaridade era insuficiente para prestar o concurso. A alternativa foi recorrer ao lixo.
A história se repete com a maioria dos garimpeiros. João Nater Paes, 25 anos, tem quatro filhos e a esposa para sustentar. Com o lixo ganha quase 50% a mais do que recebia trabalhando na construção civil. E com uma vantagem: Aqui nunca falta serviço, salientou.
O prefeito Péricles de Holleben Mello (PT) voltou a afirmar ontem que o problema do lixão é uma preocpação que sempre esteve presente no seu governo, mas argumentou que ainda não houve tempo para solucioná-lo por ser bastante complexo. Podemos colocar vigias lá e impedir a entrada das pessoas, mas elas vivem daquilo, reforçou. Segundo ele, foi criada na prefeitura uma comissão especial para encontrar uma solução emergencial para o problema, até que o município tenha condições de implantar cooperativas de reciclagem de lixo e empregar os garimpeiros. Péricles também afirmou que a prefeitura não pensa em recorrer da sentença judicial.
A Vega Engenharia Ambiental, empresa que faz a coleta de lixo na cidade, ainda não foi notificada oficialmente sobre a sentença judicial. O gerente Paulo Meirelles disse que aguarda a notificação para informar a assessoria jurídica da empresa e tomar um posicionamento. Mas ele adianta que a cerca não é suficiente para impedir a presença dos garimpeiros no lixão. Cerca até já existe, mas eles cortam quando querem entrar, contou. Segundo Meirelles, a empresa quer regularizar a situação do local, mudando o lixão da localidade rural do Botuquara para um região com solo adequado e projetos de implantação ambientalmente corretos. Hoje o lixão fica numa área de preservação ambiental.
Ponta Grossa produz mensalmente de 3,5 mil a 4 mil toneladas de lixo. A área no Botuquara recebe lixo desde 1972. Nos pontos mais altos, a camada de detritos chega a oito metros aproximadamente, segundo Meirelles. Diariamente a empresa faz a compactação do lixo e cobre com terra. Esse trabalho só é interrompido em dias de chuva.





