Famoso pelo costumeiro jeitinho em se virar nas situações mais adversas, o brasileiro não pode se queixar da falta de criatividade. Em Londrina, o garapeiro Benhur Galdino de Assis, 40 anos, assumiu essa característica para provar que caldo de cana, além de fonte de renda para a família, pode se tornar um negócio da China se a clientela tiver um tratamento diferenciado. Nem que, para isso, ele faça os 25 quilômetros do trajeto do distrito de Warta (zona norte) até o centro de segunda a domingo, com a moto carregada de gelo e cana.
Compostas basicamente por um carrinho e um engenho, as pequenas instalações pouco lembram as tradicionais peruas espalhadas pela cidade com seus banquinhos de madeira. O consumidor que provar a garapa desse ex-garçom encontrará revistas para os mais diversificados gostos das informativas semanais às especializadas em automobilismo e, para não fugir à praxe de quem espera, até as de fofoca , acomododado em cadeiras estrategicamente localizadas sobre um tapete vermelho, protegido de sol e chuva. ''O cliente fica tão à vontade que nem sente que o produto está sendo feito'', explica Assis, que não trabalha sozinho.
A esposa dele, Consuelo Alves dos Santos, conta que o sonho do negócio próprio demorou, mas foi concretizado. ''Foi um ano inteiro comprando e pagando cada peça, uma a uma'', diz. De acordo com ela, os mais de R$ 4 mil de investimento não teriam garantido o sucesso se a eficiência de um dos componentes não se mostrasse decisiva. ''O Benhur era garçom e, graças a Deus, gosta de conversar. Ele fala muito!'', diverte-se. As vendas do casal, ''por baixo uns 40 copos por dia, quando está calor'', parecem ser um indicativo, apesar dos poucos dois meses no local.
''As pessoas não querem contratar gente da minha idade''. Mais que a motivação de ser dono da própria fonte de renda, foi a necessidade que levou Assis, de 40 anos, a chamar a atenção de alguma forma para sustentar a esposa e o filho de quatro anos, já que as transformações pelas quais Londrina passou também causaram mudanças sérias no orçamento. ''Trabalhei como garçom durante 20 anos, mas na época em que o café ainda marcava bastante a economia da cidade'', lembra. Desempregado, a criatividade se tornou mesmo uma aliada indispensável, mas não a mais importante: ''Tem que fazer as coisas com amor. Senão, por mais simples que a tarefa seja, ela não dará certo'', ensina.
O ''Cantinho do Caldo de Cana'', como foi batizado, fica no cruzamento das ruas Brasil e Cambará. E já que o atendimento é diferenciado, os pedidos também podem ser feitos pelo disque-garapa, através do telefone 9992-7513. Os preços variam entre R$ 0,70 (copo de 300 ml) e R$ 4 (jarra de dois litros), e não é cobrada taxa de entrega.

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