Gangues espalham terror nas escolas
A violência de jovens que vão à aula com armas, drogas e muito ódio revela o lado negro da adolescência
Albari RosaDescontraído, um grupo de rapazes fuma maconha, encostado ao muro do Colégio Estadual Benedito João Cordeiro, no Sítio CercadoÉ fácil flagrar rodas
de estudantes fumando
maconha, com armas ou
bebidas alcoólicas
James Alberti
Veja os punhos na fotografia abaixo. Eles estão prontos para bater e até matar um ‘‘inimigo’’, que pode ser seu filho, seu irmão ou você mesmo. J.M.L., 17 anos, aluno do Colégio Estadual Benedito João Cordeiro, no bairro Sítio Cercado, em Curitiba, e a gangue à qual ele pertence afirmam que não temem ninguém e que mandam no colégio. São um exemplo clássico da causa do terror que toma conta de escolas brasileiras, cada dia mais cheias de armas, drogas e violência.
Sentado ao lado de outros dois colegas de sala e de galera, Q.G., 16 anos, e C.C.J., 14 anos, ele admite: ‘‘Se precisar matar, matamos. Se morrer, morreu... que se f...’’. A filosofia que os adolescentes levam às últimas consequências nas escolas é extraída de outra turma a que pertencem: a torcida organizada Comando Pinheiro, do Coritiba. Não é à toa que os maiores inimigos dos três alunos são uma gangue do Bairro Novo, que não por coincidência torce para o Atlético.
No rastro desse ódio, travestido de paixão por um clube, as armas e as drogas chegam aos colégios de Curitiba. É fácil flagrar rodas de estudantes fumando maconha nos intervalos das aulas, com armas ou bebidas alcoólicas nas sacolas. Os próprios alunos não fazem muita questão de esconder sua raiva e deixam no quadro negro, com tinta a óleo, a resposta à autoridade dos professores. As pichações têm até assinatura do bando, mas a diretora Maria Lourdes Bacanof não consegue descobrir os integrantes. ‘‘Todo mundo sabe, só a diretora que não’’, zombam os estudantes. Todos sabem, mas ninguém fala nada. No colégio, impera a lei do silêncio, como nas favelas do Rio de Janeiro dominadas pelo tráfico de drogas.
‘‘As escolas não conseguem acabar com as gangues, que, com certeza, estão relacionadas com as torcidas organizadas’’, diz a professora Clemência Ribas, chefe do Núcleo Regional de Educação de Curitiba, que coordena as escolas do município. Clemência cobra apoio da sociedade e alerta que o problema da violência cresceu e é grave nas escolas. ‘‘O foco mais sério é com certeza a questão das drogas’’.
Para a professora de Teorias e Técnicas de Psicoterapia Comportamental da Universidade Federal do Paraná, Iara Ingbermann, a violência nas escolas é fruto de uma distorção da sociedade. ‘‘Os valores da sociedade estão muito soltos e os adolescentes perderam as referências’’, diz. Iara afirma que os jovens perderam a noção de certo e errado, o que foi agravado pelas famílias, que não assumem mais o papel de modelos e educadoras.

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