James Alberti
De Curitiba
O gari da Cavo, que presta serviço para a Prefeitura de Curitiba, José de Lucena, 39 anos, esperou todo dia de ontem para que policiais civis fossem a sua casa, no bairro Sítio Cercado, fazer perícia dos estragos praticados por dois homens e uma mulher na manhã de domingo. Armados de revólver, pedras e paus, os três destruíram quase tudo que havia dentro da residência.
Tiros foram disparados contra os vidros e a fachada da casa. Os vidros das janelas foram quebrados com tijolos e paus. Nenhum móvel ficou em pé. A geladeira, a TV, o fogão, a estante, tudo estava no chão e quebrado. Cacos de vidro estavam por toda a casa. Lucena e a mulher fugiram por uma janela dos fundos da residência e foram para casa de familiares, com os sete filhos, que não estavam na residência no momento da invasão.
Ontem o gari e a mulher, que não quis sequer ser identificada, só voltaram à casa acompanhados da reportagem da Folha porque estão com medo das ameaças de morte dos acusados, que seriam traficantes conhecidos no bairro. O delegado do 10º Distrito Policial, Hertel Rehbein, fez pouco do drama de Lucena e da esposa. ‘‘Eles estão floreando um pouco. Alguns menores invadiram a residência e causaram danos. Não tem nada de traficantes’’, disse o delegado, que a princípio desconhecia o fato. Até o fim da tarde a perícia policial ainda não tinha sido realizada.
Segundo Lucena, porém, apenas um dos rapazes, conhecido como ‘Alemão’, seria menor. O outro, chamado de ‘Tuta’, e a mulher, ‘Regina’, seriam maiores. O gari também discorda da posição do delegado, que não acredita que os acusados sejam traficantes. ‘‘A polícia não acha que sejam (traficantes), quem acha somos nós e os vizinhos’’, disse.
A maioria dos moradores, conforme Lucena, tem medo de denunciar os supostos traficantes. ‘‘A maioria sabe, mas não gosta de falar porque tem medo’’, afirmou o gari. ‘‘Eu também sabia, mas ficava quieto para não ter problema. Mas com o que aconteceu, a gente perde o medo’’, disse. Lucena afirmou ter perdido tudo o que construiu durante a vida. ‘‘A gente ganha salário de R$ 200,00 por mês, para eles quebrar tudo em meia hora’’, lamentou.
O crime ocorreu no domingo de manhã, por volta das 8 horas. Lucena saía de casa com seu carro, um Chevette, quando se deparou com a rua trancada por um Monza, no qual estavam os três acusados. ‘‘Pedi licença para passar e eles chegaram chutando a porta do meu carro, dizendo para eu passar por outro lugar’’, conta.
O gari teria brigado com os três, tendo sido ferido na perna esquerda por uma pedrada. Depois, deixou o carro no meio da rua e foi até sua casa para ligar à Polícia Militar. Nesse instante, os três teriam chegado atirando pedras e disparando tiros contra a residência. Ao chegar no local, a PM ainda teria encontrado os acusados e liberado-os após rápida conversa.
Pais de sete filhos, de dois casamentos, Lucena e a mulher pretendem mudar de endereço. Apesar de ter casa própria, o gari não acredita ser seguro continuar morando no bairro. O casal também deverá retirar da escola três dos sete filhos, que estudavam em colégios da região.Agressores são tidos no bairro como traficantes. Mesmo assim, polícia faz pouco caso da denúncia
Mauro FrassonDESCONFIANÇAJosé de Lucena mostra a destruição de sua casa: ‘‘A polícia não acha que sejam traficantes, quem acha somos nós e os vizinhos’’

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