Milton DóriaBicho espertoCarmen Nardi e a armadilha com a qual ela tenta, em vão, capturar o gambá: barulho infernal no forro e dor de cabeça constanteUm barulho estranho no forro do sobrado. Assim começou, há cerca de noventa dias, o ‘‘inferno’’ por que passa atualmente a cabeleireira Carmen Nardi. Ela mora há 24 anos no mesmo apartamento da rua Professor João Cândido (centro), onde também atende suas clientes, e até então nunca teve um problema sério com animal no telhado. ‘‘No princípio achei que fosse um gato. Até que abri a janela, uma vez, e vi lá o bicho, escuro, com um rabo comprido’’, diz. ‘‘E o duro é que ele não me deixa dormir, fica passeando a noite inteira e não consigo dar um jeito de sumir com ele’’, completa, desolada.
O bicho que invadiu o apartamento de dona Carmen, numa das ruas mais movimentadas do centro da Cidade, não é um desconhecido para quem mora em Londrina. Há anos ele vem aparecendo, principalmente em períodos de temperatura elevada, assustando mais pela fama de mal-cheiroso do que pelo tipão desajeitado. Trata-se do gambá, um animal silvestre, notívago (vive à noite) e que, por questão de sobrevivência, abandonou as poucas e insuficientes áreas naturais para tentar a vida na cidade. O desmatamento e as queimadas são apontados como as principais causas desse fenômeno.
O problema é que, enquanto o gambá não resolve sua condição de ‘‘retirante da natureza’’, o sono de dona Carmen vai de mal a pior. ‘‘No sábado eu fechei o salão às três horas da tarde e desliguei a campanhia, só para poder dormir. Já não aguentava mais.’’
Quando o gambá apareceu em casa, dona Carmen ligou para o Corpo de Bombeiros, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) e até para o Siate, que atende só a vítimas de acidentes graves. Mas ninguém foi lá para tentar recolher o bicho. ‘‘Eles me disseram que, quando eu visse o animal, ligasse imediatamente que eles iriam buscá-lo. Mas à noite? E como é que eles vão subir no telhado? A casa é antiga, o forro não vai aguentar.’’
A última tentativa de capturar o gambá até agora não deu resultados. O pai de dona Carmen comprou um alçapão, daqueles para pegar passarinhos, e colocou no forro, com um ovo de galinha dentro. Mas o gambá, que não é bobo, já tratou de chupar o ovo pelo lado de fora da armadilha e continua a pular no forro durante a madrugada.
‘‘Eu atendo cliente com dor de cabeça e tenho tomado remédio para tentar dormir. Alguém tem que dar uma solução’’, revolta-se a cabeleireira. Para ela, não existe argumento suficiente para justificar as noites que tem perdido. Tudo por culpa de um indiscreto hóspede insone.
O cabo Fernando de Oliveira, do Corpo de Bombeiros, informa que são cada vez mais comuns em Londrina casos de pessoas que ligam pedindo para capturar gambá. Isso nem é uma função específica da corporação: ‘‘Os bombeiros ajudam em consideração à comunidade.’’
Cabo Fernando explica que normalmente atendem casos em que o animal está acuado em algum canto, facilitando a captura. Quando isso acontece, o animal é preso através de um instrumento chamado ‘‘puça’’, parecido com a rede de caçar borboletas. Ou então com a própria mão, protegida com luvas. ‘‘Houve dias em que foi capturada a família toda do animal’’, lembra.
Já em locais de difícil acesso, em que o animal se esconde com facilidade, os bombeiros não podem fazer nada. ‘‘A gente tem sugerido, nesses casos, para que o pessoal ligue para a Polícia Florestal, que teria uma estrutura adequada’’, informa o cabo Fernando. O problema é que a Polícia Florestal não tem essa estrutura (veja texto nesta página).

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