Galera de Deus: um projeto de vida
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sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local
Eles não conseguiram conter as lágrimas ao relembrar o ano de 2009. Emocionados, releram as cartas de amor escritas pelas crianças logo nas primeiras horas da manhã de ontem, antes de partirem para a sede do projeto Galera de Deus, na zona leste de Londrina.
Toda essa emoção teve um grande motivo para Marcelo e Maria Luiza Casanova, que comemoraram ontem três anos de atividades junto às crianças dos bairros mais carentes da região (Monte Cristo, Santa Fé, Marabá e Morro do Carrapato), que têm as vidas transformadas diariamente pela bondade do casal.
Em 2009, eles perceberam que não havia sentido na vida, quando apenas se trabalha para comprar bens materiais. Foi nessa busca pela realização pessoal, que resolveram se dedicar às inúmeras crianças que viviam nas ruas da zona leste.
Da vontade para a ação de fato, não demorou muito. Em pouco tempo, conseguiram ajuda de amigos e alugaram um espaço no bairro, onde reformaram e atendem hoje 90 crianças entre 5 e 12 anos. ''Nosso trabalho não se limita somente na sede. Promovemos ações que contemplam quase 100% das crianças da região. Por isso, hoje, mais do que o aniversário do Galera de Deus, é a consolidação do nosso projeto de vida'', enfatiza Maria Luiza.
Doutora em Psicologia e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Maria Luiza idealizou parte do trabalho desenvolvido como um projeto de extensão da UEL e conta hoje com transporte gratuito para as crianças da escola até o projeto e a presença de estagiários de Psicologia e Pedagogia, atuando semanalmente nas salas de aula da sede. Além disso, as crianças fazem refeições no projeto.
''Promovemos ações conforme a necessidade apresentada pelas crianças, como a distribuição de alimentos, arrecadação de material escolar, atividades de lazer, entre outras. Mas nossos três pilares têm sido o trabalho de saúde bucal, em parceria com um projeto de extensão de Odontologia da UEL, a alfabetização e o trabalho de valores'', explica.
Com aulas de reforço escolar, focadas nas habilidades de leitura e escrita, 45 crianças estão tendo um novo olhar sobre a própria educação. Um grande exemplo é Henrique Trindade. Aos 12 anos, ele descobriu que o ambiente escolar é prazeroso e o quanto é importante saber ler e escrever. ''Antes eu ficava na rua porque eu não gostava muito da escola. Eu não sabia ler nem escrever direito. Hoje eu sei, porque aprendo na escola e aqui no Galera. Daí, tudo fica mais fácil'', conta o garoto, que fez questão de expressar o amor a Marcelo e Maria Luiza. ''Eles são muito bons para nós. Se eu não tivesse um pai e tivesse que escolher um, seria o Marcelo'', diz.
Para que esse aprendizado seja prazeroso e eficaz, o método de ensino foi elaborado pelo casal e se estendeu a algumas escolas da região. ''Usamos todos os sentidos para a criança aprender, seja a visão pelas formas de escrita, a audição para relação do som de cada letra e até a percepção da boca quando pronunciamos cada palavra. Tudo isso é envolvido por músicas e brincadeiras'', explica Maria Luiza, ao citar que o objetivo para o próximo ano é trabalhar principalmente com crianças que estão no início da alfabetização.
Para o trabalho de valores é utilizado um material cedido pela doutora Marie Leiner, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, com a qual Maria Luiza teve contato profissional. ''São uma série de desenhos animados educativos, que ensinam valores e comportamento pró-social. No ano passado, capacitamos 200 profissionais que atuam com crianças através desse material e para 2013 conseguimos firmar uma parceria com o Ministério da Educação e a UEL, para distribuição do conteúdo para 350 profissionais da assistência social de Londrina'', comemora.
Todas essas mudanças que o projeto vêm conseguindo realizar na vida de inúmeras crianças em situação de vulnerabilidade social em Londrina dá credibilidade perante à sociedade, que se prontifica a ajudar através de doações e voluntariado. E isso também é um grande motivo a ser comemorado. ''Queremos mostrar para a sociedade que é possível fazer algo sem ser necessariamente uma ONG. Nosso desejo se tornou realidade e hoje, olha para isso aqui, é maravilhoso'', completa Marcelo.
E se sonhar não faz mal a ninguém, Maria Luiza e Marcelo são a prova de que ele pode se tornar realidade. É por isso que eles não param de sonhar a cada dia. ''Fico imaginando o dia em que pudermos implantar uma verdadeira escola atuando todos os dias, porque é só isso que pode mudar o ciclo de vida dessas famílias. Educação escolar junto com a educação de valores'', defende.