Osmani Costa
Todas as ruas da pequena Londrina ainda conviviam com a poeira e lama, quando o jovem Augusto Galante chegou por aqui em 1940, com 17 anos de idade. Vindo direto da cidade natal Ibitinga, no interior de São Paulo, ele trazia na humilde bagagem os dois principais presentes que ganhou em toda a sua vida, os quais conserva até hoje: uma máquina fotográfica Voigslander, de fabricação inglesa, e o livro ‘‘A arte de fotografar’’.
A primeira máquina, ele ganhara aos 9 anos de idade, do avô paterno vindo da Itália, que também se chamava Augusto Galante. O livro, ganhou do pai - igualmente italiano -, Ezequiel Galante, quando completou 13 anos. Contando ainda com o estímulo da mãe Idalina Morini, o jovem chegou em Londrina disposto a tudo para realizar o sonho de se tornar fotógrafo.
Mas o início foi difícil, porque ele não tinha experiência e nem dinheiro para ‘‘importar’’ de São Paulo os caros materiais fotográficos da época. Depois de morar quase um ano em fazendas da região - onde seus familiares trabalharam como empregados -, ele fixou residência na cidade. Seu primeiro emprego foi o de desentortador de pregos usados, em uma das lojas Fuganti. Depois de alguns meses de trabalho pesado, virou charreteiro autônomo.
Fotografia, ele começou a aprender com o japonês Kiugi Yamada, que trabalhava como ‘‘lambe-lambe’’ na praça da matriz. O ano era 1944. As primeiras fotos profissionais, Augusto Galante fez em festas juninas, de aniversário e casamentos. Antes, tinham sido apenas fotos de paisagens e da família, no interior de São Paulo. Ele foi guardando economias, aperfeiçoando a qualidade do material produzido, até que conseguiu abrir seu primeiro estúdio, na rua Mato Grosso, em 50. O da rua Maranhão - na área central - funciona no mesmo local há 31 anos.
Em 1987, ele aposentou-se. Fotos, hoje, só como hobby nos finais de semana. Ficaram, na lúcida memória, muitas histórias colecionadas na profissão, sua única e grande paixão. Já em 1950, com poucos anos de carreira, ganhou seu primeiro e mais importante prêmio. Era um concurso internacional promovido pela fábrica alemã das famosas máquinas Rolleiflex, com o tema ‘‘Assim eu vejo o meu país’’. Galante venceu o concurso com uma fotografia de trabalhadores colhendo café, feita em uma fazenda onde fica atualmente o Com-Tour (zona oeste).
Como prêmio, além do diploma e reconhecimento profissional, ganhou sua primeira Rolleiflex. ‘‘Depois, tive muitas outras. Em determinado momento, cheguei possuir oito delas. A Rolleiflex foi a melhor máquina de todos os tempos. Pena que pararam de fabricá-la’’, comenta Augusto Galante. Em 1948, ele foi convidado pelo amigo João Milanez para fazer parte da equipe de lançamento da Folha de Londrina. Assim, tornou-se o primeiro repórter fotográfico de jornal da cidade e todo o Norte do Paraná. Na Folha, ele ficou 18 anos.
E foi em uma viagem a trabalho pelo jornal que ele fez a foto que considera a mais importante da sua vida. ‘‘Fomos a Foz do Iguaçu para a inauguração da Ponte da Amizade, que havia sido construída pelo presidente Juscelino Kubitscheck, inteira de ferro. Era 1958-59. Todos os fotógrafos ficaram do lado de cá, acompanhando a comitiva do presidente. Atravessei a ponte e vim por trás do presidente paraguaio, Alfredo Stroessner. Fui o único brasileiro a fotografar o cumprimento dos dois, no meio da ponte, com o J.K. de frente. A foto ficou tão boa e inédita, que vendi para ser publicada na capa da Manchete, principal revista brasileira da época’’, lembra com orgulho.
As fotos mais difíceis de serem feitas, na avaliação dele, foram as da instalação da rede de esgoto no centro da cidade. ‘‘Os buracos tinham até 13 metros de profundidade. Eu tinha que descer dependurado por cordas, como se fosse um poceiro, naquela escuridão danada. Trabalhei em média quatro horas por dia, durante duas semanas, para conseguir boas fotos. Mas valeu a pena’’, conta Augusto Galante, para quem a principal virtude do bom repórter fotográfico deve ser a persistência. ‘‘Não se deve desistir nunca. Não existe foto impossível. E pelo melhor ângulo, pela melhor foto, não podemos medir esforços.’
Outra característica que ele considera fundamental é a pré-visão. ‘‘O bom fotógrafo se distingue dos outros porque consegue antever o fato, e assim fotografá-lo no instante em que acontece’’, explica Augusto Galante, que esteve em muitos países fotografando. Ele se lembra com carinho especial das duas copas do mundo de futebol que cobriu, a da Inglaterra - em 1966 - e a do México, em 70. ‘‘Não ganhei muito dinheiro com a profissão, mas o suficiente para uma vida digna. Mas o principal foi que tive muito prazer com a fotografia e ela me proporcionou muitos amigos.’
Galante lembra que os filmes coloridos chegaram na cidade por volta de 60-61, época em que a revelação ainda era cara e feita só em São Paulo. ‘‘Antes, com os filmes somente em preto e branco e sem estas máquinas automáticas de hoje, era muito mais difícil fazer boas fotos. Era uma arte’’, ressalta, inumerando os políticos paranaenses famosos que fotografou: Moisés Lupion, Ney Braga, Osken de Novaes, Jaime Canet e José Richa.
Hoje, aposentado, ele administra seu estúdio, continua fotografando - ‘‘para não enferrujar e não esquecer’’ - e cuidando, com o carinho de pai, das antigas máquinas fotográficas que juntou durante a vida inteira. ‘‘Eu sou o único caso de solteiro bígamo. Casei-me logo cedo, simultaneamente e para sempre, com as máquinas e a fotografia. E sou muito feliz com elas.’’


PERFIL

Nome: Augusto Galante
Idade: 75 anos
Onde nasceu: Ibitinga (SP)
Quando chegou em Londrina: Em 1940
Profissão: Fotógrafo aposentado
Curiosidade: Foi o 1º repórter fotográfico da Folha
Sonho: ‘‘Está difícil sonhar, em meio a tanta ganância, desemprego e guerras.’’

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