Qua­ren­ta alu­nos do cur­so de Ciên­cias Bio­ló­gi­cas do Cen­tro Uni­ver­si­tá­rio Fi­la­dél­fia (Uni­Fil) ini­cia­ram o ano le­ti­vo com uma no­vi­da­de: a dis­ci­pli­na de Lin­gua­gem Bra­si­lei­ra de Si­nais (Li­bras). A ins­ti­tui­ção é a pri­mei­ra em Lon­dri­na a obe­de­cer um de­cre­to fe­de­ral, que des­de 2005 obri­ga a in­ser­ção da dis­ci­pli­na nos cur­sos de Fo­noau­dio­lo­gia e de for­ma­ção de pro­fes­so­res. A ini­cia­ti­va é do Co­mi­tê de Aces­si­bi­li­da­de da Uni­Fil.
  Pa­ra en­ca­rar o da­sa­fio, a ins­ti­tui­ção con­tra­tou Cleu­sa Ca­mar­go de Oli­vei­ra, que é sur­da des­de os ­seis ­anos de ida­de. ‘‘Quan­do re­ce­bi o con­vi­te fi­quei preo­cu­pa­da. Ti­nha me­do de não ser ­respeitada’’, ad­mi­te Cleu­sa, que ape­sar do re­ceio, as­su­miu a tur­ma.
  Ela afir­ma que o con­ta­to com os alu­nos es­tá sen­do tran­qui­lo. So­men­te a pri­mei­ra au­la acon­te­ceu por ­meio de uma in­tér­pre­te. ‘‘Foi me­lhor pa­ra eu me apre­sen­tar e fa­lar da ­disciplina’’, diz.
  Nas au­las cleu­sa uti­li­za re­cur­sos au­dio­vi­suais e ma­te­riais im­pres­sos. ‘‘Bus­co es­tra­té­gias pa­ra me co­mu­ni­car com a ­turma’’, afir­ma a pro­fes­so­ra, que há ­mais de 10 ­anos ­atua no Ins­ti­tu­to Lon­dri­nen­se de Edu­ca­ção de Sur­dos (­ILES). ­Além de ser gra­dua­da em Pe­da­go­gia e pos­suir es­pe­cia­li­za­ção em Psi­co­pe­da­go­gia, atual­men­te ela cur­sa Le­tras-Li­bras em uma Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral. Cleu­sa tam­bém é edu­ca­do­ra de sur­dos e mi­nis­tra cur­sos de Li­bras pa­ra ou­vin­tes.
  Ela de­fen­de a in­ser­ção da dis­ci­pli­na de Li­bras na gra­de cur­ri­cu­lar dos cur­sos de for­ma­ção de pro­fes­so­res. ‘‘Os do­cen­tes vão ­sair ­mais pre­pa­ra­dos pa­ra o mer­ca­do de tra­ba­lho. Vão li­dar me­lhor com as ­diferenças’’, as­se­gu­ra, lem­bran­do que ‘‘mui­ta gen­te ­acha que os sur­dos são pes­soas ­inferiores’’. Se­gun­do Cleu­sa o pre­con­cei­to ain­da é gran­de e a so­cie­da­de pre­ci­sa re­ver al­guns con­cei­tos. ‘‘Os es­ta­be­le­ci­men­tos de­ve­riam con­tar com um in­tér­pre­te ou ter fun­cio­ná­rios que sai­bam Li­bras. Evi­ta­ria si­tua­ções ­constrangedoras’’, fa­la.
  A pro­fes­so­ra diz já es­tar acos­tu­ma­da com a in­di­fe­ren­ça e a fal­ta de co­nhe­ci­men­to de al­gu­mas pes­soas. ‘‘Eu sim­ples­men­te ig­no­ro cer­tas ­coisas’’, fa­la Cleu­sa, res­sal­tan­do que le­va uma vi­da nor­mal. ‘‘Sou ca­sa­da com um sur­do e te­nho um fi­lho de oi­to ­anos que ou­ve ­normal-mente’’, con­ta.
  Pau­lo Ro­ber­to Gu­tir­rev, alu­no do ter­cei­ro ano de Ciên­cias Bio­ló­gi­cas, es­tá mo­ti­va­do pa­ra as au­las de Li­bras. ‘‘É a pri­mei­ra vez que te­nho con­ta­to com a lin­gua­gem dos sur­dos. Es­tou achan­do mui­to ­interessante’’, diz. De acor­do com ele, a no­va dis­ci­pli­na po­de ser ­útil pa­ra a vi­da, di­mi­nuin­do o pre­con­cei­to e au­men­tan­do as chan­ces no mer­ca­do de tra­ba­lho. ‘‘É pos­sí­vel ­atuar co­mo ­intérprete’’, ar­gu­men­ta.
  De acor­do com a coor­de­na­do­ra de ­ação aca­dê­mi­ca, Lau­ra Ma­ria S. Mau­ra­no, no pró­xi­mo ano a ins­ti­tui­ção vai in­se­rir a dis­ci­pli­na de Li­bras no cur­so de Pe­da­go­gia. ‘‘O sim­ples aten­di­men­to à le­gis­la­ção já se­ria uma jus­ti­fi­ca­ti­va ra­zoá­vel, po­rém dar aces­so é ­mais do que cum­prir nor­mas, é uma ques­tão de ci­da­da­nia e res­pei­to ao ­próximo’’, res­sal­ta. No Bra­sil, há 24,6 mi­lhões de pes­soas por­ta­do­ras de al­gu­ma de­fi­cên­cia, sen­do que os de­fi­cien­tes au­di­ti­vos so­mam 5,7 mi­lhões.
  As ins­ti­tui­ções têm até 2015 pa­ra se ade­quar ao de­cre­to fe­de­ral, in­cluin­do a dis­ci­pli­na de Li­bras nos cur­sos de for­ma­ção de pro­fes­so­res e Fo­noau­dio­lo­gia.


SAIBA MAIS
O Decreto Federal 5.226, de 22 de dezembro de 2005, trata da inclusão da Libras como disciplina curricular, assegurando que:
* A Libras é obrigatória nos cursos de formação de professores, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições públicas e privadas;
* A Libras é disciplina optativa nos demais cursos de educação superior;
* A formação do docente de Libras deve ser de graduação de licenciatura plena em Letras: Libras ou em Letras: Libras/Língua Portuguesa como segunda língua;
* As pessoas surdas têm prioridade para ministrar a disciplina;
* As instituições, a partir da publicação do decreto, devem incluir Libras nos seguintes prazos e percentuais mínimos:
- Até três anos, em 20% dos cursos da instituição;
- Até cinco anos, em 60% dos cursos;
- Até sete anos, em 80% dos cursos;
- Até 10 anos em 100% dos cursos.

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