Futuros professores começam a aprender Libras
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de março de 2009
Paula Costa Bonini<br> Reportagem Local 
Quarenta alunos do curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário Filadélfia (UniFil) iniciaram o ano letivo com uma novidade: a disciplina de Linguagem Brasileira de Sinais (Libras). A instituição é a primeira em Londrina a obedecer um decreto federal, que desde 2005 obriga a inserção da disciplina nos cursos de Fonoaudiologia e de formação de professores. A iniciativa é do Comitê de Acessibilidade da UniFil.
Para encarar o dasafio, a instituição contratou Cleusa Camargo de Oliveira, que é surda desde os seis anos de idade. Quando recebi o convite fiquei preocupada. Tinha medo de não ser respeitada, admite Cleusa, que apesar do receio, assumiu a turma.
Ela afirma que o contato com os alunos está sendo tranquilo. Somente a primeira aula aconteceu por meio de uma intérprete. Foi melhor para eu me apresentar e falar da disciplina, diz.
Nas aulas cleusa utiliza recursos audiovisuais e materiais impressos. Busco estratégias para me comunicar com a turma, afirma a professora, que há mais de 10 anos atua no Instituto Londrinense de Educação de Surdos (ILES). Além de ser graduada em Pedagogia e possuir especialização em Psicopedagogia, atualmente ela cursa Letras-Libras em uma Universidade Federal. Cleusa também é educadora de surdos e ministra cursos de Libras para ouvintes.
Ela defende a inserção da disciplina de Libras na grade curricular dos cursos de formação de professores. Os docentes vão sair mais preparados para o mercado de trabalho. Vão lidar melhor com as diferenças, assegura, lembrando que muita gente acha que os surdos são pessoas inferiores. Segundo Cleusa o preconceito ainda é grande e a sociedade precisa rever alguns conceitos. Os estabelecimentos deveriam contar com um intérprete ou ter funcionários que saibam Libras. Evitaria situações constrangedoras, fala.
A professora diz já estar acostumada com a indiferença e a falta de conhecimento de algumas pessoas. Eu simplesmente ignoro certas coisas, fala Cleusa, ressaltando que leva uma vida normal. Sou casada com um surdo e tenho um filho de oito anos que ouve normal-mente, conta.
Paulo Roberto Gutirrev, aluno do terceiro ano de Ciências Biológicas, está motivado para as aulas de Libras. É a primeira vez que tenho contato com a linguagem dos surdos. Estou achando muito interessante, diz. De acordo com ele, a nova disciplina pode ser útil para a vida, diminuindo o preconceito e aumentando as chances no mercado de trabalho. É possível atuar como intérprete, argumenta.
De acordo com a coordenadora de ação acadêmica, Laura Maria S. Maurano, no próximo ano a instituição vai inserir a disciplina de Libras no curso de Pedagogia. O simples atendimento à legislação já seria uma justificativa razoável, porém dar acesso é mais do que cumprir normas, é uma questão de cidadania e respeito ao próximo, ressalta. No Brasil, há 24,6 milhões de pessoas portadoras de alguma deficência, sendo que os deficientes auditivos somam 5,7 milhões.
As instituições têm até 2015 para se adequar ao decreto federal, incluindo a disciplina de Libras nos cursos de formação de professores e Fonoaudiologia.
SAIBA MAIS
O Decreto Federal 5.226, de 22 de dezembro de 2005, trata da inclusão da Libras como disciplina curricular, assegurando que:
* A Libras é obrigatória nos cursos de formação de professores, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições públicas e privadas;
* A Libras é disciplina optativa nos demais cursos de educação superior;
* A formação do docente de Libras deve ser de graduação de licenciatura plena em Letras: Libras ou em Letras: Libras/Língua Portuguesa como segunda língua;
* As pessoas surdas têm prioridade para ministrar a disciplina;
* As instituições, a partir da publicação do decreto, devem incluir Libras nos seguintes prazos e percentuais mínimos:
- Até três anos, em 20% dos cursos da instituição;
- Até cinco anos, em 60% dos cursos;
- Até sete anos, em 80% dos cursos;
- Até 10 anos em 100% dos cursos.


