Maringá Quase ninguém, ao atravessar a Praça Raposo Tavares e seguir em direção ao terminal de transporte coletivo, entre a Avenida Brasil e a Rua Gilberto de Carvalho, anda com medo de morrer baleado. Bem mais simples, e nem por isso menos angustiante, o receio é de ser assaltado ou sofrer algum tipo de violência emocional ou física.
Reportagem da Folha publicada ontem mostra que o município foi classificado como o mais seguro do país, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento. O Ipea construiu um índice que mede o risco de ser uma pessoa ser assassinada e constatou que de cada 100 mil maringaenses, 7,94 têm chances estatísticas de ser morto.
Se o homicídio não é a principal preocupação de quem mora em Maringá, porque a cidade é segura e calma, os outros crimes incomodam. É o caso do auxiliar de fiação João Joel do Santos, 50 anos, que trabalha na Cocamar no período da noite e de vez em quando se arrisca caminhando quase oito quilômetros até o serviço. ''Eu vou porque gosto de andar e fazer exercícios, mas não dá pra ficar dando sopa não. Um dia desses, estava voltando pra casa e quatro garotos chegaram perto de mim. Eu estava com quatro quilos de carne na mão. 'E aí tio? Passa isso pra cá, a gente precisa comprar um baseado'. Eu dei né, fazer o que?'', contou o auxiliar, segundo antes de pegar o coletivo, linha 177. Ele tem uma filha de 15 anos, que não sai de casa desacompanhada. ''Se for pro Centro, só vem comigo'', garantiu.
O casal de namorados, que acabara de se conhecer, também compartilha da mesma opinião. Ela, 16 anos, estudante do ensino médio. Ele, também 16, entregador de uma empresa de laticínios. ''Venho de Sarandi só pra encontrar a menina, estou acostumado a andar de noite, mas é preciso ficar esperto pra não ser surpreendido'', avisou Cléber Alex da Cruz. ''Saio da escola tarde (por volta das 11h30) e venho direto para o terminal. Nunca fui assaltada e espero que a primeira vez não chegue nunca'', disse a namorada Andressa Suellen.
A praça, mal iluminada os refletores ficam praticamente escondidos com o avanço dos galhos é um dos principais pontos de tráfico de drogas no Centro. Ainda assim, o fluxo continua intenso até as 23h30, tudo pra pegar ônibus na estação. A estudante de comércio exterior, Michele Ferreira, 19, é uma delas. A oeste dali, fica a universidade dela, a mais ou menos cinco quadras, percorridas diariamente a pé. Michele disse que de vez em quando recebe aqueles ''elogios'' indesejados. ''Mas graças a Deus, nunca passou disso. Mas não dá pra dizer que a gente anda sossegada num horário desses''.
A praça da Catedral, uma espécie de pouso para andarilhos e ponto de prostituição, também é considerada perigosa pela polícia. A reportagem tinha acabado de fazer uma entrevista no local e causou desconforto nos moradores da praça. Um delas chegou a ameaçar. ''Não vai tirar foto de mim não que o negócio pode pegar!''.
O presidente do Conselho Comunitário de Segurança, o professor Carlos Alberto Corrêa, acha ilusório considerar a cidade plenamente segura levando em conta somente o baixo índice de assassinatos. Para ele, Maringá tem seus problemas. ''Não estou contestando a pesquisa, que tem seus métodos e indica uma realidade. Mas temos os nossos problemas, não vivemos em uma ilha. Não concordamos com o crimes contra o patrimônios de pequena monta (furtos e roubos) e isso precisa ser mudado'', argumentou.
Em Maringá, o número de furtos qualificados se aproxima da média nacional. Segundo um levantamento da Secretaria Nacional de Segurança Pública, baseado em dados de uma estimativa de 2003 do IBGE, a média anual deste tipo de crime no País é de 1,2 mil ocorrências para cada 100 mil habitantes. Levando em conta os mesmos critérios, de acordo com informações da Polícia Militar, o índice em Maringá é de 1.119 furtos. ''A sensação de segurança é uma coisa muito subjetiva e, sinceramente, na minha opinião, ela não existe aqui, porque a questão da segurança tem muitas variáveis, e não se restringe apenas ao número de homicídios'', argumentou o professor.
Ainda assim, Maringá ostenta outro parâmetro de violência, além dos assassinatos, que a coloca no bloco das cidades mais seguras, como sinaliza a pesquisa do Ipea. Em 2004, foram 270 roubos para um grupo de 100 mil pessoas. A média nacional é quase duas vezes maior, 483 registros.

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