''Seria hipocrisia dizer que não me amedronta a idéia de trabalhar no Educandário. Todo mundo tem esse receio. Mas com diálogo e respeito acho que é possível lidar com esses adolescentes. Só não sei ainda como abordá-los, o que deixá-los ou não fazer.'' A declaração é do estudante de 3º ano de geografia Claudinei Camargo, 25 anos, que iniciou ontem suas atividades como educador da Unidade Social Oficial de Internação de Londrina (Usoil), o Educandário.
Claudinei tem sorte. Sua primeira tarefa na nova função não foi controlar a agressividade dos adolescentes internos no Educandário, da qual ele só tem conhecimento pelos jornais, mas justamente participar de um curso de capacitação que tem como um dos principais temas a prevenção e a intervenção em casos de conflito. Se houvessem tido a mesma oportunidade seis meses atrás, os funcionários que atuam na Usoil desde sua inauguração não teriam passado, talvez, pelo pesadelo de enfrentar sucessivas rebeliões. Agora todos estreantes e antigos educadores, instrutores, técnicos e até empregados de serviços gerais passarão cinco semanas se preparando para lidar com a realidade do Educandário.
O programa de capacitação foi inaugurado na manhã de ontem por representantes da Usoil, do Instituto de Ação Social do Paraná (Iasp), da Promotoria de Infância e Juventude de Londrina, da Polícia Militar (PM) e do Corpo de Bombeiros. Todos serão ''professores'' do curso, esclarecendo os assuntos mais diversos como sistema de justiça juvenil, defesa pessoal, combate ao fogo, gerenciamento de crises e profissionalização.
''Qualquer pessoa que esteja lidando com os adolescentes do Educandário tem que saber que aquilo não é um spa, é um local de privação de liberdade, espaço de educação, socialização, coisas que esses jovens nunca tiveram'', afirma a promotora Édina de Paula, que acredita ser possível recomeçar o trabalho na unidade de internação pelo caminho certo. ''Esse programa de capacitação não vai tornar ninguém expert, mas é mais um instrumento para desenvolver um trabalho que começou errado, sem planejamento'', argumenta.
Segundo a diretora da Usoil, Laura Okamura, o término do curso deverá coincidir com a da reforma física da unidade, prevista para ser entregue em meados de fevereiro. A conclusão de ambas as ações permitirá, diz Laura, reativar o Educandário. Ele está fechado desde o início de dezembro, quando os internos promoveram a maior rebelião até então registrada no local. Com a destruição de grande parte das instalações da unidade e a constatação de que o espaço era inadequado, o Estado resolveu investir quase R$ 500 mil em obras de reforma. Os adolescentes tiveram de ser transferidos para outras unidades.
Laura afirma que, para tentar superar as dificuldades enfrentadas até agora, as melhorias no prédio e no trabalho dos funcionários virão acompanhadas por outras pequenas mudanças. ''Até a alimentação será diferente, com a substituição das marmitex por refeições servidas em pratos. Tudo influi no comportamento dos adolescentes''.

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