FUMÓDROMOS - Defendendo a saúde de quem não fuma
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quarta-feira, 03 de outubro de 2007
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Defender a saúde de quem não fuma. Esta é a meta do ministro da Saúde, José Temporão, ao sugerir o fim dos fumódromos no Brasil. Dentro do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) da Saúde, ele irá propor um projeto de lei ao Congresso, acabando com as áreas destinadas aos fumantes em ambientes fechados, tornando-os totalmente livres de fumaça. As orientações reforçam o fato de que a ventilação e filtragem do ar não são suficientes para reduzir a exposição passiva aos malefícios da fumaça.
Segundo a fisioterapeuta Ana Luiza Oliveira Prado Souza, mestre em tabagismo, a fumaça eliminada pela queima do cigarro forma duas correntes. A primeira é aquela inalada pelo próprio fumante, durante a tragada. Já a secundária é formada no intervalo entre as tragadas e é emitida livremente da ponta do cigarro aceso, diretamente no ar.
''Durante a corrente secundária, não houve a filtragem do cigarro, que queima lentamente, em baixa temperatura, liberando mais de 5 mil substâncias nocivas'', explica Ana Luiza.
Conforme ela, algumas das substâncias encontradas na corrente principal, como amônia, benzeno, monóxido de carbono, nicotina e outros cancerígenos, estão na fumaça secundária, a qual polui muito mais o ambiente do que a própria fumaça tragada pelo fumante.
Para a fisioterapeuta, apesar do lobby das indústrias do setor, a lei que quer extinguir os fumódromos tem grande chance de ser aprovada. ''Mais do que excluir e discriminar os fumantes, deve-se ofertar tratamento. As campanhas preventivas, apoiadas nas leis antitabagistas, surtem resultado. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que o número de fumantes no Brasil reduziu consideravelmente na última década. Fumantes querem parar de fumar.''
Desde 1992, a OMS considera o tabagismo doença. No entanto, apesar de ter sido signatário da Convenção Quadro para o Controle do Tabagismo com outros 167 países, o Brasil ainda discute a regulamentação de fumódromos. ''Em Nova York os fumódromos já são proibidos e a experiência é bem sucedida. Na Argentina, os estabelecimentos comerciais estão em fase de adaptação e a União Européia tem planos de proibir a instalação de fumódromos até 2009'', informa Ana Luiza.
Segundo ela, durante o Fórum Tabagismo Passivo e Legislação sobre Ambientes Livres de Fumo, realizado no início de setembro, no Rio de Janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) propôs uma consulta pública sobre uma nova regulamentação do fumo em ambientes fechados.
A proposta prevê a padronização de salas para fumantes, com área mínima de 4,8 metros quadrados, acesso único e sem aberturas para o exterior, separação dos demais ambientes por divisão fixa, portas automáticas e pisos e paredes resistentes à lavagem frequente.
''O tabagismo passivo é a terceira causa de morte evitável no mundo, logo atrás do tabagismo ativo e do álcool'', assinala a fisioterapeuta. Conforme ela, a absorção passiva de fumaça aumenta em 30% o risco de um indivíduo desenvolver câncer de pulmão e em 24% o risco de infarto em relação aos não fumantes que não estão expostos ao tabaco.
''Dependendo do tempo de exposição, a fumaça pode causar efeitos de curto prazo como irritação nos olhos, coriza, tosse, cefaléia, alergias, além de efeitos a longo prazo como a diminuição da capacidade funcional respiratória e o aumento do risco de arteriosclerose'', completa.
Segundo Ana Luiza, que coordena o programa VivaLivre de Abandono ao Tabagismo, em Londrina, os próprios fumantes não suportam a fumaça que produzem e sabem que estão prejudicando a si mesmos e aos outros. ''O fumo é uma doença, uma dependência química e precisa ser tratado'', defende.
A professora de zoologia Sirlei Bennenann é fumante, mas acha desagradável sentir o cheiro de fumaça de outros fumantes quando não está fumando. Ela, inclusive, carrega uma espécie de cinzeiro portátil para evitar jogar cinzas no chão.
''Sou a favor do fim do fumódromo, mesmo sendo fumante, por respeito às pessoas que não fumam e também como uma maneira de ter disciplina. Cada um pode ter um vício, mas não pode afetar os outros. Além disso, a medida pode ajudar quem tem vontade de deixar o cigarro.''
Segundo Sirlei, na Universidade Estadual de Londrina, por exemplo, não há fumódromos e alguns alunos até reclamam do fato de alguns professores fumarem na sala de aula. ''As pessoas não têm consciência, jogam cigarro no chão. Falta cultura, cuidado ambiental e respeito pelo outro de forma generalizada.''


