Mônica Kaseker

Kraw PenasMiguel (à esq.) e Juliano: de volta para casa depois de ver o mar e viajar de avião, agora colecionam reportagens sobre a aventuraFotos nos jornais, entrevistas na TV e passeio de avião foram recebidos como uma espécie de troféu pelos meninos de Curitiba que há 20 dias iniciaram uma aventura: viajar de carona até o Rio de Janeiro. Eles se sentem como heróis, mas são vistos pela vizinhança quase como marginalizados. E durante a viagem não faltaram oportunidades para isso. Juliano Aretz, 13 anos, e Miguel da Silva, 12, presenciaram o assassinato de um rapaz de 16 anos na praia do Arpoador, em Ipanema, e também foram assediados por traficantes que queriam vender drogas para eles. De volta para casa, eles prometem não repetir a façanha, mas dizem que não se arrependem da aventura.
Por volta da uma hora da madrugada de ontem, Miguel e Juliano reencontraram a família no bairro da Fazendinha, entregues pela equipe do S.O.S. Criança, depois de viajarem pela primeira vez de avião. Depois de muita choradeira, os garotos contaram os detalhes da viagem. Juliano parece mesmo ter liderado a aventura, como suspeitava Maria da Luz Cabral da Silva, 39, a mãe de Miguel. Colecionando as reportagens publicadas no Jornal do Brasil, O Globo, Folha e ainda a passagem de avião, ele conta que a viagem até o Rio demorou cinco dias.
Os garotos saíram com R$ 1,75 no bolso para engraxar sapatos no centro da cidade. Foi assim que conseguiram mais R$ 15,00 e seguiram de ônibus até Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, onde subiram num caminhão cegonha e viajaram escondidos até São Paulo. Depois de ir para várias cidades do interior de São Paulo, às vezes com a autorização dos motoristas, eles chegaram ao Rio de Janeiro. Lá Juliano diz ter conseguido um ponto para guardar carros em Ipanema e cada um dos meninos ganhava cerca de R$ 15,00 por dia.
Juliano conta que sentiu medo apenas quando ouviu tiros e depois viu o corpo de um rapaz de 16 anos estendido na praia. Para ele, a aventura valeu a pena a não ser por ter deixado a mãe triste. Enia, 34 anos, teme pelo futuro do filho, mas admite que perdeu o controle sobre ele. Casada pela segunda vez, Juliano é um dos dois filhos que teve no primeiro casamento. Juliano garante que sabe distinguir entre o certo e o errado e que não se envolve com marginais. Com 13 anos, ele ainda está na terceira série e diz que agora vai estudar para valer.
Miguel diz que só viajou porque Juliano insistiu. Para os pais, o susto foi ainda maior porque há doze anos eles tiveram um filho desaparecido. Com 12 anos, Miguel também está atrasado na escola, mas na semana que vem volta a cursar a quarta série, desta vez numa escola de período integral.
No Serviço de Investigações sobre Crianças Desaparecidas (Sicride), a maioria das queixas registradas acabam se revelando fugas, principalmente de jovens com famílias desestruturadas. ‘‘Estão tratando esses meninos como heróis, o que incentiva outras crianças a fazer o mesmo’’, critica o superintendente do Sicride, Renato Ferreira. Os pais de Miguel e Juliano foram intimados a comparecer ao Sicride hoje para prestar esclarecimentos sobre a fuga dos dois.

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