A queda nas temperaturas aumenta em aproximadamente 30% a procura por vagas no albergue mantido pela Fundação de Ação Social de Curitiba (FAS). No inverno, a capacidade de atendimento chega ao máximo, com a ocupação diária de todos os 240 leitos disponibilizados no local. O problema, no entanto, é que mesmo antes do frio se tornar mais intenso o movimento já era grande no abrigo. A média registrada foi de 230 pessoas utilizando o espaço a cada dia -índice igual ao alcançado no último final de semana, quando ocorreu a primeira geada na Capital.
Para a gerente técnica da Central de Resgate da FAS, Nádia Cristina Moreira, o aumento nos atendimentos se deve a uma mudança no perfil dos moradores de rua. De acordo com ela, o consumo de drogas, em especial o crack, levou para as ruas as mulheres -até então quase inexistentes entre esta população- e pessoas mais jovens, com problemas em suas famílias ou nas comunidades onde moram. Anteriormente, o morador de rua era a pessoa com mais de 40 anos de idade e que em alguns casos optou pela vida nas ruas. "Em 80% é questão da droga, com idade entre 18 e 26 anos. Temos casos de pessoas com curso superior e que estão aprendendo a viver na rua. É uma mudança drástica, atípica", conta.
O acolhimento dos moradores de rua é centralizado pelo município, que conta com outras duas instituições parceiras no atendimento ao público. O Albergue São João Batista e o Lar Esperança atendem casos específicos relacionados à saúde. Parcerias com organizações de tratamento da dependência química também complementam o atendimento. Além do pernoite, em que podem se alimentar e fazer a higiene pessoal, os usuários recebem orientações de assistentes sociais. Muitos recusam a proposta de acompanhamento e deixam o local durante o dia, retornando apenas para dormir.
"A Central de Resgates serve para atender o público que mora na rua. Se cinco indivíduos estão usando drogas em um ponto da cidade, acham que é nosso papel, mas é de segurança pública, se está passando mal, é questão de saúde, não é da política de assistência social", esclarece Nádia, sobre uma possível confusão relacionada ao real papel da Central de Resgates.
O encaminhamento ao albergue é realizado a partir de três situações. Educadores e asssistentes sociais da central vão às ruas e seguem roteiros pré-definidos em locais de concentração constante de moradores de rua, como o Terminal do Guadalupe e as praças 19 de Dezembro, Tiradentes e Rui Barbosa, para realizar abordagens ou verificam as denúncias recebidas pela Central de Atendimentos e Informações 156. Em outro caso, os próprios moradores de rua se dirigem ao albergue, na chamada procura espontânea pelo usuário.
Em março deste ano, foram feitos 889 atendimentos a partir de denúncias da Central 156, 1.549 abordagens nas ruas e 5.414 recepções por meio da procura espontânea do usuário. No mesmo período, 5.835 pessoas utilizaram o albergue e 82 aceitaram continuidade do acompanhamento, com busca à família ou encaminhamento a instituições de desintoxicação.

Ampliação
Para solucionar o problema da grande procura pelo abrigo, especialistas estão analisando propostas de melhorias, que serão apresentadas até agosto deste ano. Na visão de Nádia, a ampliação do prédio não é a saída, mas sim a descentralização do atendimento para as outras centrais. "Este não é mais um problema do anel central de Curitiba, temos grandes regionais com grandes centros. Também precisamos de um trabalho educativo com a população, sobre a esmola. Isto contribui para que os moradores permaneçam na rua para comprar mais droga. Estamos financiando o narcotráfico desta forma", afirma.

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