Frente de Trabalho dá o último suspiro
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quarta-feira, 30 de junho de 2004
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Pagamento por cada dia trabalhado: R$ 12,43. Direito a férias, 13º salário, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS): nunca houve. Apesar dessas tristes condições, foi com mais medo do que alívio que os últimos funcionários da Frente de Trabalho da Prefeitura de Londrina se despediram de suas funções, ontem. Medo do futuro, do desemprego, da pobreza.
''Nos últimos dias até passei mal de pensar em ficar sem emprego. Imagine a sensação de acordar de manhã e não ter para onde ir.'' O desabafo é da servente Ana de Oliveira Merética, 55 anos, que encerrou ontem uma jornada de sete anos cuidando da limpeza da prefeitura. Junto com ela, cerca de 50 pessoas trabalharam até o último suspiro da Frente de Trabalho remanescentes de um grupo de quase dois mil trabalhadores que vinham sendo dispensados desde agosto de 2001.
Naquele mês, o Ministério Público (MP) resolveu dar um basta no sistema, considerado um desrespeito aos direitos do trabalhador e tomado por irregularidades, como a contratação de funcionários com formação superior. De acordo com o secretário municipal de Gestão Pública, Ricardo Kemotsu, a Frente foi criada nos anos 1980 para absorver trabalhadores da Zona Rural, prejudicados pelas fortes geadas que devastaram lavouras. ''Com o tempo esse objetivo se distorceu totalmente'', assinalou.
Já na atual gestão, a prefeitura acatou o Termo de Ajustamento de Conduta proposto pelo MP, que determinava o desligamento gradativo dos trabalhadores e o pagamento de benefícios previdenciários ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Segundo Kemotsu, essa dívida ficou em R$ 15 milhões, parcelados por 20 anos. O dinheiro é descontado mensalmente do Fundo de Participação dos Municípios repassado pelo governo federal.
O secretário afirmou que grande parte dos trabalhadores dispensados foi absorvida por empresas que prestam serviço em terceirização à prefeitura, ou retornaram a suas funções por meio de testes seletivos. De acordo com ele, o mesmo deverá ocorrer com os funcionários desligados ontem. É essa esperança que move a servente Ana. ''Estamos contando conseguir uma vaga na nova empresa de limpeza contratada (por terceirização) pela prefeitura. Ter a carteira de trabalho limpa, nessa idade, torna bem difícil conseguir um emprego'', disse.
Com pouco estudo, Vilson Pedro de Carvalho, 42, aposta em sua experiência e disposição para conquistar outro emprego. ''Trabalhei durante dez anos na Frente de Trabalho, fazendo de tudo: pegando peso, ajudando na limpeza, carregando móveis. Sempre gostei de serviço e espero que a prefeitura possa nos ajudar'', torceu.
Vilson lembra, contudo, que muitos colegas dispensados da Frente antes dele estão sem emprego. Ele mesmo não decidiu o que vai fazer enquanto o emprego terceirizado não se concretizar. ''A gente trabalha tanto que não dá tempo para pensar. Do amanhã, não sei.''


