‘‘E aí me dá uma tristeza no meu peito, feito um despeito de eu não ter como lutar. E eu que não creio peço a Deus por minha gente. É gente humilde, que vontade de chorar.’’ O pedreiro Valdevino Gomes, 45 anos, embarcou no 314 em um ponto próximo ao barraco onde mora, no bairro João Turquino (zona oeste). Sentado na última fileira, ele tentou esconder as mãos calejadas enquanto confessava o medo, não apenas de trafegar nos coletivos, mas de ser obrigado a habitar a periferia. ‘‘A gente tem uma televisão se o bandido deixar.’’
Com três filhas pequenas, ele diz que ‘‘dá um duro danado’’ para sustentar a família, mas as chances de melhorar de vida são remotas. Para ele e a grande maioria dos moradores do João Turquino, faltam chances. ‘‘É muita desigualdade.’’ Na opinião do pedreiro, mesmo com a violência que impera no local, não dá para sair por aí ‘‘crucificando’’ a delinquência. ‘‘Muitas vezes não sobra opção. Sem emprego e sem ter o que comer, o cara pega o revólver e vai roubar.’’
Gomes perdeu a conta de quantas vezes presenciou assaltos na linha 314. A descrença na segurança pública, na oferta de empregos, na saúde e educação dignas é total. ‘‘Não dá para confiar nesse políticos que estão aí.’’
O operador de máquinas Adilson Aparecido dos Santos, testemunha ocular de um assalto no coletivo 314, fala da sensação de impotência frente à violência. ‘‘Os bandidos se unificaram e a gente ficou por conta.’’ A dona de casa Marisa Salete, que entrou no ônibus e ocupou um assento com a neta no colo, nunca viu um roubo, mas compartilha do mesmo medo. ‘‘Rezo ao sair de casa.’’

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