Arquivo FolhaSem fronteiraC.F., 13 anos, de Foz, foi resgatada de um prostíbulo no Paraguai Foz do Iguaçu, na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, entra na campanha nacional de Combate ao Turismo Sexual Infanto-Juvenil. Com o mote ‘‘Cuidado. O Brasil está de olho’’, a campanha entra nas ruas no dia 22, com apoio do trade turístico da cidade, e traz um amplo material de divulgação, além de um pacote de medidas punitivas para os infratores.
A região da fronteira, contrariando os índices oficiais que mostram apenas a região Nordeste do País como preocupante, já registra um grande número de crianças e adolescentes de ambos os sexos se prostituindo. No último levantamento feito pela Polícia Civil e Movimento de Direitos Humanos (MDH) há dois anos, Foz tinha entre 800 e mil garotas de programa. ‘‘Os números não mudaram. Centenas delas são menores de idade, infelizmente’’, lamenta o coordenador do MDH, Olmar Klich.
A extensão do problema levou as autoridades da fronteira a criar o Fórum Permanente Contra Exploração, Violência e Prostituição Infantil. Sob a coordenação do MDH, várias garotas brasileiras foram resgatadas de boates do Paraguai. Todas levadas por cafetinas que agem em Foz.
Em um dos casos, a menor C.F, de 13 anos, que estava em um ‘‘quilombo’’ (casa de prostituição), em Santa Rita (110 quilômetros de Foz), foi ‘‘repatriada’’.
Ao contrário do Nordeste, que recebe alemães, italianos e espanhóis em busca do sexo infanto-juvenil, a fronteira recebe árabes, chineses, coreanos, além de paulistas, cariocas, mineiros e pessoas de outras regiões do País que vêm em busca do prazer.
No centro da cidade existem cinco boates que vendem sexo, além de outras seis na periferia. Muitas das boates atendem em domicílio. Jornais locais e panfletos entregues pelas garotas nos semáforos exibem anúncios sugestivos.
Abandono Perambulando em busca de cliente na Avenida JK, no centro de Foz, Rita G.C., 19 anos, ‘‘funcionária’’ de uma casa noturna, contou à Folha que foi abandonada pela boate depois que fez 18 anos. ‘‘Eles gostam de menininhas. Depois que viramos um bucho, somos descartadas’’.
O programa de Rita custa R$ 25. Nos tempos de ‘‘menininha’’, cobrava até R$ 200. Mas menos de 20% ficava em suas mãos. A maior parte era retida por donos de boates. Do que ganha, Rita manda quase tudo para os pais que moram em Pato Branco.
Essa semana, uma operação supresa realizada pela Polícia Civil feita por determincação do juiz da Vara de Infância, Luis Sérgio Neiva de Lima, retirou onze garotas que faziam programa com caminhoneiros na aduana que liga o Brasil a Argentina. Das onze, seis são menores de idade.
Ferida O deputado estadual Sérgio Spada (PSDB), um dos coordenadores da campanha na cidade, diz que ‘‘a ferida vai ser mexida e causará muita dor’’. Ainda assim, ele não acredita em resistência do trade. ‘‘É certo que ganham muito dinheiro com a exploração do turismo sexual, mas isso tem que acabar, antes que o problema acabe conosco’’.
A coordenadora nacional da campanha, Ana Karin Quental, diz que o Brasil explorou até a década de 80 a imagem de sensualidade da mulher brasileira para vender o País no exterior.
Agora, diz, o País vai partir para a contra-ofensiva, envolvendo agências de viagem, hotéis, restaurantes e táxis. Até bilhetes aéreos vão ser contemplados com uma mensagem clara: praticar sexo com crianças é crime e dá cadeia.

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