Foz ''exporta'' menores prostitutas
Emerson Dias
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
Quadrilhas estão traficando adolescentes de Foz do Iguaçu, entre 14 e 17 anos, para se prostituir em casas noturnas da Argentina e do Paraguai. Nos últimos dois meses, a Delegacia da Mulher de Foz recebeu cinco denúncias de aliciamento de jovens para a prostituição. Três desses casos eram ligados ao tráfico para cidades argentinas da fronteira e de outras regiões do país.
O caso mais recente foi registrado no final de semana. Leivinho da Silva (também conhecido como Nenê), 26 anos, foi preso em flagrante, acusado de agenciar adolescentes que vivem em Foz do Iguaçu para se prostituir na Argentina.
Junto com Silva, preso na Pousada Iguaçu, em Foz, a polícia encontrou E.F.C., de 14 anos, que havia denunciado o caso ao Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente. Ela confirmou ter sido convidada a trabalhar, mesmo grávida de cinco meses, em um dos bolichos (gíria que designa prostíbulos na Argentina) da cidade de Puerto Iguazú, separada de Foz apenas pelo Rio Iguaçu.
Silva nega que agencia menores, mas admite que muitas mulheres lhe devem favores por conseguir alguns bicos para elas. A polícia e o Conselho Tutelar estão investigando Silva e sua companheira, também suspeita de aliciar e acompanhar duas garotas a Puerto Iguazú no início deste mês.
Há informações de que, entre 12 e 15 meninas brasileiras, estão no mesmo prostíbulo para onde E.F.C. seria levada e devem retornar até o dia 23 para o Brasil. Existe uma espécie de rodízio neste esquema. Como estão com documentos ilegais, as meninas não ficam mais que 25 dias trabalhando no exterior, disse Fátima Rejane Luiz Dalmagro, conselheira do Conselho Tutelar de Foz.
O esquema do tráfico de adolescentes prostitutas começa na compra de documentos falsos. Os aliciadores obtêm com ladrões e trombadinhas documentos roubados de jovens entre 18 e 20 anos. Uma foto da menor é colada, na maioria das vezes de maneira grosseira, sobre a original da identidade.
Depois, as adolescentes passam uma a uma, ora acompanhada por um agenciador, outras vezes sozinha as pontes da Amizade (BrasilParaguai) e Tancredo Neves (BrasilArgentina). Raramente elas atravessam a fronteira de ônibus ou de carro. O segredo dos traficantes é deixar que as meninas passem pelos fiscais e policiais das pontes a pé, explica Fátima.
Quando são paradas, as jovens dizem que vão fazer compras nos mercados da cidade. Se presas com documentos falsos, como são menores, não podem ir para a cadeia.
Na Argentina, as adolescentes chegam a ganhar até 100 pesos (cerca de R$ 200,00) por programa, mas boa parte desse dinheiro (entre 60% e 70%) vai para o dono da casa. Um aliciador ganha até R$ 1 mil por menor encaminhada.
No Paraguai, a situação é ainda pior. Os clientes pagam, em média, 9 mil guaranis (cerca de R$ 5,00) por programa. Nesse país, o último caso registrado pelo Conselho foi no ano passado, quando 50 mulheres brasileiras foram repatriadas, entre elas cinco menores.
A Polícia Federal, responsável pela fiscalização nas pontes, alega que é impossível conferir a documentação de todas as pessoas que cruzam as fronteiras. Diariamente, centenas de jovens atravessam as duas pontes para pedir esmolas, trabalhar como ambulantes ou como laranjas (pessoas que ajudam os sacoleiros a passar com o contrabando).





