Fóssil inédito é descoberto em Cruzeiro do Oeste
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terça-feira, 01 de setembro de 2015
Aline Machado Parodi<br> Reportagem Local 
Um fragmento de mandíbula de 1,8 centímetro encontrado em Cruzeiro do Oeste (Noroeste) revelou uma nova espécie de lagarto fóssil. A descoberta foi publicada na semana passada na renomada revista científica Nature Communications pelos pesquisadores do Centro de Paleontologia (Cenpaleo), da Universidade do Contestado, de Santa Catarina, em parceria com o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade de Alberta, no Canadá.
A nova espécie foi batizada de Gueragama sulamericana. Segundo os pesquisadores, este é o primeiro registro fóssil deste grupo de réptil na América do Sul. O Gueragama pertence aos lagartos iguanídeos acrodontes, que existem apenas nos continentes do Velho Mundo. O fragmento encontrado em Cruzeiro do Oeste tem aproximadamente de 80 milhões de anos, do período Cretáceo.
O fóssil foi encontrado em agosto do ano passado, mas os pesquisadores só concluíram os estudos do fragmento para publicação em maio deste ano. Os fósseis mais antigos de acrodontes têm entre 160 milhões e 180 milhões de anos e foram encontrados na Índia. Os estudos mostram que este grupo se dispersou pela Ásia durante o período Cretáceo e, durante o período Cenozoico, 66 milhões de anos atrás, pela África e Europa.
A descoberta da Gueragama sulamericana mostra que a dispersão destes répteis pelo hemisfério sul ocorreu antes do que acreditavam os paleontologistas. "Este é um achado raro e vai permitir a reconstrução paleo-ambiental e geográfica do local", explicou o paleontólogo Everton Wilner, do Cenpaleo. Existem poucas informações sobre a fauna de lagartos e serpentes da América do Sul e a descoberta dessa espécie indica que os lagartos sul-americanos eram mais próximos aos grupos existentes em outros continentes do que aos grupos que habitam atualmente o Brasil e a América do Sul.
Para o professor do Museu Nacional, Alexandre Kellner, "esta descoberta demonstra o enorme potencial do Brasil para contribuir com o conhecimento da evolução dos vertebrados, o que pode ser exemplificado com o depósito de Cruzeiro do Oeste". "Se com pouca verba já fazemos descobertas importantes, imagina se houvesse um investimento substancial na paleontologia brasileira", cobrou.
O local onde foi encontrado o fóssil do lagarto já foi palco de outra descoberta, divulgada no ano passado, a de um pterossauro da espécie Caiujara dobruskii. "A região de Cruzeiro do Oeste tem registro de pegadas de dinossauros e desconfiamos que possa ter mais animais no local", comentou Wilner.
As escavações em Cruzeiro do Oeste começaram em 2012. Anualmente, os pesquisadores do Cenpaleo fazem incursões na região para estudos. Eles têm autorização do Departamento Nacional de Produção Mineração (DNPM) para exploração da área até 2016.
A Prefeitura de Cruzeiro do Oeste desapropriou uma área de 400 metros quadrados para a realização das escavações. "Trabalhamos numa área de 20 metros quadrados, mas a prefeitura preferiu desapropriar uma área de 400 metros quadrados por garantia", explicou Wilner.
Apesar dos paleontologistas estarem trabalhando na região desde 2012, os registros de fósseis na área de Cruzeiro do Oeste é da década de 1970. O paleontólogo Everton Wilner conta que em 1971 os moradores abriram uma valeta em um terreno e acharam ossos. "A área era muito escorregadia, principalmente quando os moradores passavam de carroça por ali. Então, decidiram abrir uma valeta e encontraram uns ossos. Um senhor fotografou e, em 1975, a rocha foi encaminhada ao acervo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), e ela ficou tombada no acervo", contou.
Anos depois, a rocha foi redescoberta no acervo e despertou a atenção dos pesquisadores. "Aquela rocha tinha só uma informação: Cruzeiro do Oeste. Quando fomos lá no município verificar encontramos no balcão da prefeitura o filho do senhor que tirou a foto e daí iniciou a nossa parceria com a prefeitura que nos auxilia com a logística durante as escavações", lembrou Wilner.
Segundo o paleontólogo, a região tem uma importância pela característica de ter registro de pegadas de dinossauros. "Cruzeiro do Oeste tem muita erosão e os fósseis estão distribuídos pelo terreno. Acredito que ainda vamos fazer mais descobertas no local", afirmou.


