Lúcio Horta
De Londrina
A possível extinção da Fundação Nacional do Índio (Funai), que estaria sendo acenada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), foi um dos principais temas debatidos ontem durante o ‘‘Fórum de Diretos Indígenas – Agenda para o Século 21’’. O encontro, que vai até o dia 27 no Anfiteatro Maior do Centro de Ciências Humanas (CCH) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é organizado pelos departamentos de História e Ciências Sociais da UEL e também pela Coordenação Geral de Defesa dos Direitos Indígenas da Funai.
‘‘O governo federal está esvaziando o trabalho da Funai, principalmente com a transferência da Educação para o Ministério da Educação e da Saúde, há 20 dias, para a Fundação Nacional da Saúde (FNS). Então para que vai servir a Funai?’’, questionou Azelene Krig Inácio, da Coordenação Geral de Defesa dos Direitos Indígenas da Funai de Brasília (DF). Ela veio ao encontro substituindo Marcos Terêna, que teve um compromisso de última hora em Campo Grande (MS) e não pôde vir a Londrina.
Azelene destaca que não defende a manutenção da atual estrutura da Funai que, segundo ela, é um órgão extremamente burocratizado e que não atende inteiramente as necessidades dos índios brasileiros. Mas esperava que o governo ao menos discutisse uma reformulação do órgão, tornando-o mais ágil. ‘‘A Funai é um órgão que merece ser repensado. A política indianista merece ser repensada. Mas pedimos várias vezes audiência com o presidente Fernando Henrique Cardoso e ele diz que é impossível nos receber’’, lamenta. ‘‘Então o que a gente tem que comemorar nesses 500 anos?’’
Para ela, a curto prazo o fim da Funai pode significar uma ‘‘catástrofe’’ para as comunidades indígenas, a maioria delas que ainda tem o órgão como principal referência. ‘‘O Ministério da Saúde não dá conta da população e não tenho porque acreditar que vai dar conta também dos índios’’, diz. A médio e longo prazo, a própria cultura das tribos brasileiras estaria ameaçada. ‘‘O que se quer é que os índios engrossem as filas da miséria e da pobreza nos grandes centros. E isso é uma irresponsabilidade do governo’’, critica.
Azelene Krig conhece bem os problemas dos índios da região. De família caigangue, de Terra Indígena Carreteiro (RS), antes de ir para Brasília ela foi assessora especial de assuntos indígenas do Paraná, no governo Roberto Requião (PMDB).
Segundo ela, o último ‘‘relatório da fome’’, uma espécie de censo realizado em 1996 por diversas organizações não-governamentais (ONGs) brasileiras, apontou que os índios da Região Sul são os mais desnutridos no Brasil. ‘‘Existe um corredor da miséria do índio que passa pelo Sul, Centro-Oeste e Nordeste. E a FNS não sabe como vai lidar com esse problema’’, acrescenta.
O Fórum prossegue hoje com discussões sobre o impacto que as barragens hidrelétricas previstas para serem construídas no Rio Tibagi terão sobre as comunidades indígenas. Kimiye Tommasino, antropóloga da UEL e organizadora do evento, disse que, além de membros da comunidade indígena, foram convidados representantes da Copel, Ibama, IAP e Ministério Público.

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