Fórmula para soropositivos gera polêmica
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de junho de 2000
Silvana Leão De Londrina 
Profissionais que tratam de pacientes com Aids utilizando medicamentos antiretrovirais e o próprio Ministério da Saúde estão preocupados com a repercussão das notícias envolvendo os efeitos benéficos da fórmula homeopática denominada Canova. Alguns estariam abandonando a terapia convencional para tratar-se apenas com o medicamento natural.
Há pouco mais de três meses, a Folha publicou reportagem sobre o remédio e a possibilidade do mesmo ser inserido no tratamento de soropositivos atendidos no Hospital Universitário (HU) de Londrina. O material jornalístico, porém, não pregava o abandono do chamado coquetel, e o médico Alair Alfredo Berbet ressaltava a importância de continuar com os antiretrovirais enquanto as pesquisas em torno da fórmula Canova não são concluídas.
Segundo Paulo Wesley Faccio, membro da Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia), muitas pessoas têm ligado à procura de informações sobre o medicamento, que é fabricado na Argentina, e querendo saber se o HU irá distribuí-lo entre seus pacientes. Estamos esclarecendo que os efeitos do Canova ainda não foram comprovados cientificamente e que o mesmo não é reconhecido pelo Ministério da Saúde. Ele disse não poder confirmar se há quem esteja abandonando os antiretrovirias e aderindo apenas ao tratamento natural.
Faccio ressalta que há uma página na Internet afirmando que vários pacientes, depois de certo tempo utilizando a fórmula, negativaram, ou seja, tiveram a carga viral do HIV zerada. Isto é uma fraude, é um desserviço. Cientificamente, não há como isto acontecer. Se algum caso como este tivesse de fato ocorrido, poderíamos dizer que foi descoberta a cura da Aids e milhares de pessoas no mundo todo estariam se beneficiando disso.
Ele diz que a grande preocupação da associação é justamente a forma como o Canova vem sendo divulgado e como as pessoas o estão utilizando. Ele deve ser visto como um tratamento complementar, que é sempre bem-vindo. Faccio afirma, porém, que os médicos que já estão prescrevendo a fórmula aos seus pacientes não estão seguindo o protocolo de pesquisa científica.
O médico Marcos Freitas Campos, coordenador do Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Estadual de Londrina (UEL), esclarece que o projeto de pesquisa sobre o uso do Canova foi apresentado há alguns meses mas o comitê recomendou uma reformulação antes de submetê-lo à apreciação. Não há definição, portanto, quanto à sua aprovação.
Segundo Campos, existe um documento oficial elaborado pela coordenação da disciplina moléstias infecciosas, da UEL, afirmando que não há experiência com o medicamento na instituição e a disciplina não o adotará, por seguir as normas do Ministério da Saúde. Para o médico, é preciso alertar os pacientes com HIV para que não deixem de utilizar os antiretrovirais, que agem na biologia do vírus e são produto de tecnologia muito complexa. Não há restrição quanto ao uso paralelo do Canova, mas a única comprovação que temos até agora é o benefício econômico que ele está trazendo para o bolso de seus produtores, diz.
Durante a entrevista à Folha, o médico foi informado por uma funcionária do HU que o Comitê Nacional de Ética e Pesquisa (Conep) estava questionando as informações que vêm sendo divulgadas sobre a aprovação do uso do medicamento na UEL. Em contato telefônico feito posteriormente pela reportagem, uma representante do Conep restringiu-se a explicar o papel do órgão, que é coordenar um sistema de acompanhamento da ética nas pesquisas realizadas pelas instituições brasileiras. E justamente pela ética, ela disse não poder comentar sobre o contato feito com a universidade.
A Comissão Nacional de Bioética, onde o protocolo do projeto que pretende incluir a homeopatia no tratamento de pacientes soropositivos do HU estaria sendo submetido a apreciação, não foi localizada em Brasília. De acordo com informações do setor de medicamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que concede o registro para comercialização de remédios no País, não há até agora pedido de registro do medicamento Canova.
Na Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST)/Aids do Ministério da Saúde, as informações são de que o governo não fala sobre o medicamento e não o recomenda. De acordo com a assessoria de imprensa, no mês de março o Ministério promoveu uma reunião com profissionais que adotam o Canova no tratamento de pacientes de Aids. Porém, os resultados apresentados foram considerados insuficientes para a sua recomendação.
Segundo Alair Berbet, a intenção do projeto apresentado ao Comitê de Ética e Pesquisa da UEL, é criar um grupo de controle dos efeitos proporcionados pelo medicamento. Segundo ele, este grupo seria subdividido em dois: um que receberia o coquetel juntamente com o Canova e outro que continuaria a terapia apenas com o coquetel. A partir daí, os resultados seriam analisados cientificamente. Nossa proposta, portanto, não é de abandono dos antiretrovirais, mas sim trabalhar com os dois medicamentos.


