Os 62 formandos do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL) decidiram, este ano, quebrar uma tradição de mais de dois mil anos. Na cerimônia de formatura, realizada ontem, no Teatro Marista, eles substituíram o tradicional juramento de Hipócrates de Cós - médico e filósofo que viveu no ano de 460 antes de Cristo - por outro, escrito pelo médico José Eduardo de Siqueira, professor de Clínica Médica (Cardiologia) e Bioética da UEL.
O estudante Jean Marcelo Moreno, 25 anos, integrante da comissão de formatura, disse que a decisão dos alunos, de mudar o juramento, foi tomada depois que eles assistiram às aulas da disciplina de Bioética, ministrada pelo próprio professor José Siqueira. Eles fizeram uma análise crítica do juramento e concluíram que o texto estava defasado.
‘‘A sala inteira discutiu. Vimos que o juramento (de Hipócrates) não condizia mais com a realidade atual. Então pedimos para que o professor fizesse outro juramento’’, explica. Moreno acrescenta que a turma de formandos não esperava tamanha repercussão. Ainda assim, ele afirma, ninguém pensou em voltar atrás da decisão. ‘‘Hoje (ontem) mesmo conversamos sobre isso. E concordamos que a decisão foi a correta’’, informou o estudante.
‘‘A primeira coisa que eu disse a eles é que seria uma responsabilidade tremenda, que era uma tradição de séculos’’, aponta o professor José Eduardo de Siqueira, autor do novo juramento. Ele acrescenta que, como os alunos insistiram, inclusive dando as diretrizes sobre o que esperavam de um novo juramento, resolveu atender ao pedido. ‘‘Claro que eu sei que isso vai gerar polêmica, por ser uma situação inédita’’, admite.
O professor destaca que a idéia dos alunos não foi negar a tradição ou mesmo a importância de Hipócrates para a medicina. Mas apenas fazer um juramento mais adequado aos dias atuais. ‘‘Seria desconfortável para o aluno fazer um julgamento com termos que ele não concorda. Não que o julgamento seja condenável. Hipócrates escreveu para a realidade de uma época’’, destaca.
Siqueira explica que na época de Hipócrates, no século 5 a.C., na Grécia, o médico era visto como uma espécie de intermediário entre Deus e a sociedade - assim como os sacerdotes. Por isso, tinha o poder de decidir, por exemplo, que tipo de tratamento seria feito, independente da vontade ou da opinião do paciente. Decidia inclusive o que o paciente podia e o que não podia saber sobre o próprio estado clínico. Não havia espaço para discussão.
‘‘Aquele modelo era compatível com a sociedade grega. Para eles, o universo estava acabado e cabia ao homem descobrir as leis da natureza’’, diz. ‘‘O juramento hipocrático, portanto, é um juramento religioso.’’ Com o passar dos anos, aponta o professor, os valores sofreram mudança radical. Hoje é o paciente - e não o médico - que dá a palavra final sobre qualquer procedimento que deva ser tomado.
José Eduardo de Siqueira acredita que o grande mérito dessa polêmica foi possibilitar ao aluno e ao profissional uma discussão mais aprofundada sobre a própria Medicina. ‘‘Me sinto contente porque isso está produzindo uma reflexão do que as pessoas estão jurando, afirmando’’, observa.

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