Formação sem fronteiras
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quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
O português flui com certa dificuldade e carrega um sotaque quase que ''cantado''. O cardápio típico brasileiro - feijão com arroz - é encarado com certa estranheza e a maior dificuldade é a saudade.
Para os alunos que decidem sair do país de origem para frequentar as salas de aula das universidades brasileiras, a adaptação à nova cultura é um dos processos mais difíceis, porém, não menos atrativo. Afinal de contas, o estudante que opta por um intercâmbio, seja na graduação ou pós-graduação, está em busca principalmente de novas experiências e a interação com outras culturas.
''Meu objetivo é aprender mais e mais. Mesmo estando há pouco tempo na UEL, já aprendi bem o português e um pouco da cultura brasileira. Isso já é o resultado que eu esperava'', responde Auriel Rodrick, de 22 anos, aluno do 1º ano de Direito.
Rodrick está no Brasil desde o ano passado, quando deixou a República Democrática do Congo, na África Central, para estudar português na Universidade Federal do Paraná (UFPR). ''Na minha terra se fala francês e, por isso, não sabia uma palavra em português. Em março deste ano, depois de algumas aulas, fui selecionado para ingressar na UEL'', explica Rodrick, ao revelar que estudar fora do Congo é uma promessa feita pelo pai, quando ainda estudava no Ensino Médio. ''Tenho uma irmã que foi estudar Administração na Rússia e meu pai achou que também seria uma boa experiência para mim.''
Assim como Rodrick, outros estudantes africanos podem ser encontrados pelo campus da UEL. Ao todo, hoje, são 78 alunos estrangeiros que ingressaram pelo programa de Intercâmbio e o Programa de Estudantes - Convênio de Graduação (PEC-G) que possibilita aos cidadãos de países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém acordos educacionais ou culturais realizar estudos em nível de graduação e também através dos programas de intercâmbio.
Segundo dados da Divisão Central de Estágios e Intercâmbios - DCEI da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), que administra o PEC-G, do total de alunos estrangeiros hoje na UEL, 26 ingressaram através de vestibular, 23 pelo intercâmbio e 29 pelo Convênio PEC-G. Quanto ao programa de intercâmbios ainda não há uma estimativa, já que ao contrário do Brasil muitos países têm o ano letivo diferenciado do ano civil e muitas atividades universitárias se iniciam neste segundo semestre.
Ao todo, 13 países participam do programa de intercâmbio: Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Espanha, Paraguai, Portugal, Uruguai, Japão, Itália, Argentina, EUA e França. Os três últimos possuem a maior demanda de alunos enviados e ingressantes na UEL. Ainda de acordo com a Prograd, a proximidade de localização entre os países e o estreitamento de parcerias relacionadas a programas de intercâmbio podem ser algumas justificativas.
Em relação aos alunos africanos, a principal forma de ingresso é por meio do PEC-G, que desde 2005 já recebeu 115 estudantes, sendo 9 neste ano. Os países mais incidentes são Cabo Verde, Angola, Guiné Bissau e Moçambique. Quanto as àreas de maior interesse, lideram os cursos de Agronomia, Arquitetura e Urbanismo, Educação Física, Esporte e Medicina.
Curiosidade
Entre os países da África, o maior número de estudantes veio de Moçambique, Congo, Angola, Quênia e Guiné Bissau. Como Isnaba Lopes Crisma, de 24 anos, estudante do 2º ano de Letras. Incentivado por um tio que há muitos anos deixou Guiné Bissau para estudar Medicina em Minas Gerais e pelos próprios irmãos, que também estão frequentando universidades estrangeiras, Isnaba decidiu buscar experiências e conhecer outras culturas, a começar pelo Brasil.
''Eu não conhecia a UEL. Me inscrevi no PEC-G e acabei sendo selecionado para cá. Minha primeira tentativa foi estudar relações internacionais em Marrocos, mas não deu certo por questões burocráticas'', diz.
Desde 2010 em Londrina, Isnaba já se habitou aos costumes brasileiros, mas ainda não se anima com o ''feijão e arroz'' e dá risada quando ouve gírias, como ''o bagulho tá sinistro''. ''Isso é muito estranho'', diz, aos risos. Em pouco tempo, arrumou um emprego como garçom em uma churrascaria e conquistou uma namorada brasileira. ''Assim fica mais fácil lidar com a saudade da família'', comenta Isnaba, que por onde passa desperta a curiosidade de muita gente. ''Pra mim é tudo muito diferente, mas o brasileiro é curioso e acabam perguntando muito. Às vezes nem sobra tempo para eu fazer as perguntas'', brinca.
Apesar da nova vida, Isnaba ainda não decidiu nada quanto ao futuro. ''Vou terminar este ano e pensar no que vou fazer. Talvez volte para minha terra. Muitas pessoas têm uma imagem formada da África, mas cada país tem suas dificuldades, políticas. Eu respeito a África e luto para que a história da minha terra não seja resumida à pobreza e miséria. Isso existe em qualquer lugar'', defende.


