'Formação ética do aluno é função do professor'
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terça-feira, 04 de setembro de 2007
Adriana Ito<BR>Reportagem Local 
Quem é o responsável pela formação moral e ética da criança? Será que a família deve ser a única provedora disso? Apesar de a sociedade discutir o tema há muito tempo, essa formação vem sendo relegada a todo mundo sem ninguém assumi-la de fato. Pais que trabalham muitas vezes delegam essa função à escola, e esta acaba rebatendo sob o argumento de que seu papel é outro.
''A formação ética e moral do aluno é responsabilidade e função do professor sim'', assevera o professor Ulisses Araújo, pós-doutor em Psicologia Básica pela Universidade de Barcelona. Araújo ministrou a conferência ''A Atividade de Ensino como Responsabilidade Social do Professor'', durante o II Seminário de Educação do Interior do Paraná, realizada em Londrina, no mês passado.
''O modelo de escola em que o professor ensina e o aluno fica sentado aprendendo data do século XIX, e funcionava bem porque a escola era para poucos. Os alunos eram homogêneos, e os diferentes eram excluídos. Hoje em dia, a democratização da sociedade mudou esse cenário'', explica Araújo, acrescentando que, junto com essa democratização, a sociedade se reestruturou, e a família está descobrindo que já não consegue arcar com a formação de valores sozinha. ''A sociedade mudou e é legítima a transferência dessa responsabilidade para a escola, instituição que foi criada para instruir e formar'', argumenta.
Araújo observa que ainda há uma certa resistência por parte das escolas em assumir esse papel de formador de cidadãos. O palestrante lembra que o próprio projeto político-pedagógico das escolas prevê que a instituição atue também na formação do aluno. Ele conta que a norma é exigida pelos parâmetros curriculares há dez anos, mas isso não vem sendo realizado, pelo menos não de forma sistematizada.
''O professor não foi preparado para assumir essa responsabilidade, mas vai ter que aprender'', afirma, lembrando que tratar de temas como direitos e deveres, exclusão e discriminação durante as aulas não pressupõe formação específica. Araújo explica que essa inclusão deve ser feita não na forma de uma disciplina, mas perpassando todas as aulas.
Para tanto, uma das alternativas apontadas pelo educador é utilizar os projetos já adotados na escola para tratar desses temas. Aliado a isso, ele sugeriu o trabalho em parceria com toda a comunidade, não se restringindo apenas às famílias, mas abrangendo todos os equipamentos sociais no entorno da escola, como o Conselho Tutelar, postos de saúde, Polícia Militar, ONGs e até comerciantes. A criação de um fórum com encontros regulares ajudaria a comunidade a saber o que o aluno está pesquisando, e todos estariam mais abertos e prontos a repassar as informações requeridas pelos estudantes em suas pesquisas. ''A escola tem a falsa impressão de que está aberta à comunidade, mas tem dificuldade de estabelecer diálogos.''
O terceiro ponto seria mudar o papel do aluno, adotando um ''protagonismo juvenil'', em que o estudante seria incentivado a canalizar sua energia em projetos socialmente relevantes e o professor atuaria como mediador do conhecimento. ''Dessa forma, é claro que o aluno participaria. Mudar o foco da aula não resolve o problema da indisciplina e violência, mas ajuda a combater.''
O professor reconhece que o educador muitas vezes precisa enfrentar condições adversas de estrutura e salários baixos, mas destaca que a mudança que propõe independe de recursos financeiros. ''É preciso que o professor entenda que ele tem uma função de responsabilidade social, e que tenha a intenção de mudar'', aponta, lembrando que essa mudança traria resultados significativos a médio e longo prazo.


