Força policial desocupa área no norte
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de setembro de 1997
Alexandre Sanches 
Alvorada do Sul
Dorico da Silva
AÇÃO PACÍFICAPoliciais da Tropa de Choque observam os sem-terra desmontando as barracas erguidas há 45 dias na fazenda Nossa Senhora Aparecida. A ação, que começou por volta das 6 horas com o bloqueio de estradas que dão acesso à area, durou pouco mais de duas horas. Mais de 100 policiais cercaram as barracas onde dormiam homens, mulheres e crianças. Os sem-terra foram levados para os locais de origem, na região sudoeste do Estado, em veículos fretados pelo arrendatário da fazenda. Sob protesto e chorando bastante, as mulheres diziam só sair acompanhadas dos maridos que foram presos. A primeira ação da PM foi prender cinco homens (acima), identificados como líderes do acampamento. Eles respondem a crimes de invasão de propriedade, apropriação indébita, desobediência à ordem judicial, formação de quadrilha e danos materiais
Cerca de 100 policiais militares de vários batalhões do Paraná e do Comando de Policiamento de Interior (CPI) desocuparam ontem de manhã a Fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Alvorada do Sul (68 km ao norte de Londrina), ocupada há 45 dias por 42 famílias sem-terra. A ação durou pouco mais de duas horas e foi pacífica.
Esta foi a primeira reintegração de posse de área invadida por membros do Movimento dos Trabalhadores Rural Sem-Terra (MST) com uso de força policial, desde a experiência traumática em novembro de 1995, quando houve confronto entre policiais e sem-terra na Fazenda Saudade, em Santa Isabel do Ivaí.
Às 6 horas as estradas de acesso a Alvorada do Sul foram bloqueadas pela PM e Polícia Rodoviária. Neste momento, oficiais, membros de Grupos de Operações Especiais (GOE) e de pelotões de Choque entraram no acampamento, cercando as barracas onde dormiam pouco mais de 40 pessoas entre homens, mulheres e crianças.
A primeira medida foi prender cinco sem-terra: Laudelino Camargo, 40 anos; Porfírio João Machado, 42 anos; Pedro Borba Machado, 31; Carlos Eduardo Conti, 22 e Severino Camargo, 35 anos. Eles respondem a crimes de invasão de propriedade, apropriação indébita (do trator, óleo diesel e a aveia plantada, todos do arrendatário Homero Ramos Palma), desobediência à ordem judicial, formação de quadrilha e danos materiais. Eles denunciam terem sido enganados e usados pela coordenação do MST no norte do Paraná e por Sindicatos dos Trabalhadores Rurais das regiões Oeste e Sudoeste do Estado.
Há aproximadamente 20 dias ocorreu o primeiro conflito entre sem-terra e Homero Palma. O arrendatário denunciou o uso do trator da fazenda e destruição de uma área onde estava plantada aveia. Na semana seguinte, Palma foi com alguns seguranças à fazenda evitar que os invasores gradeassem a plantação de aveia. Houve tiroteio e os sem-terra colocaram fogo na Brasília do arrendatário.
O comandante do 15º BPM de Rolândia, tenente-coronel Nelson Correa Ramos, só autorizou a entrada da equipe da Folha na fazenda quase duas horas após o início da operação. Pensamos na integridade física de vocês, por isso não deixamos que entrassem antes, pois temíamos um confronto, justificou. PMs que não quiseram se identificar confirmaram que havia receio de conflito. Toda a operação foi registrada em vídeo pelos policiais.
Os sem-terra desmontaram as 18 barracas e colocaram seus pertences em dois caminhões. Eles foram levados para os locais de origem, na região sudoeste do Estado, em veículos fretados pelo arrendatário da fazenda. Sob protesto e chorando bastante, as mulheres diziam só sair acompanhadas dos maridos que estavam presos. A Polícia justificou que eles seriam liberados em seguida e que as encontrariam no local de origem. Um comboio de viaturas dos batalhões de Cascavel e Foz do Iguaçu escoltaram o ônibus e os caminhões para Realeza e Santa Isabel do Oeste.
Às 10 horas Homero Palma, o pai Antônio Palma e o cunhado Carlos Antônio Tanajura da Silva receberam a terra de volta. O oficial de Justiça Sílvio Navarro de Miranda leu o termo de posse. Palma garante que já perdeu parte do milho plantado e que os prejuízos estão calculados em mais de R$ 30 mil. Ontem mesmo começou a colher o milho. Ele espera recuperar o prejuízo com a safra de verão.


