Há séculos a sociedade dita padrões de comportamento. Para tudo existe uma maneira correta ou mais adequada, seja para comer, vestir ou falar. Entretanto, são quesitos que, de alguma forma, podemos nos adaptar, se assim preferirmos. A situação fica mais complicada quando a mudança foge do nosso alcance, como as características físicas. Pessoas muito baixas, com pés pequenos, pernas compridas demais ou obesas são alguns exemplos dos que ficam à mercê dos produtos fabricados em grande escala e de maneira padronizada. Enquanto uns não conseguem ter uma vida normal, outros têm jogo de cintura suficiente para driblar as dificuldades.
Que o diga o jovem estudante Hélio De Lacerda, que aos 18 anos tem 2,05 metros de altura. Mais alto que os amigos desde a infância, ele diz que há muito tempo aprendeu a lidar com as vantagens e desvantagens de ser grande. ''Sempre fui o mais alto da turma. Quando tinha nove anos, tive um estirão e cresci 17 centímetros em um ano. Mas isso nunca foi problema. Pelo contrário, na prática de esportes eu levava vantagem.''
Entre as principais dificuldades ele destaca a viagem diária de transporte coletivo. ''Pego o Psiu (micro-ônibus), bem menor que os tradicionais. Para entrar, tenho que me abaixar, senão bato a cabeça. E as poltronas são minúsculas e minhas pernas não cabem. Para minha sorte, como os passageiros me conhecem, já sabem que vou sentar na poltrona do fundo, que é mais espaçosa. Mas isso eu tiro de letra.''
Para contornar os problemas, ele usa a criatividade. ''Sempre dei um jeito de fazer tudo. Para não ficar com os pés para fora enquanto durmo, por exemplo, tenho uma cama de casal e durmo na diagonal. Roupas eu mando ajustar, porque se fica bom no tamanho, não fica no comprimento. Ventiladores pregados no teto, tenho que ficar atento e desviar. E no final, eu dou risada com as pessoas e logo solto: 'Não é com você, não é?' Sou muito comunicativo, isso ajuda muito nas relações também.''
Pés pequenos
Da mesma receita compartilha a assistente social Elizabeth Takahachi Romero, 49 anos. Sendo a mais baixa da família, com 1,48m de altura, e calçando apenas número 32, ela dá uma aula de autoestima. ''Apesar da dificuldade em encontrar sapatos do meu tamanho, nunca foi um grande problema. Felizmente, tenho uma boa condição financeira, que me permitia viajar a outras cidades atrás de calçados especializados. Mas hoje é tudo muito mais fácil'', conta.
Além dos pés pequenos, ainda tem a questão da altura, mas Elizabeth afirma que isto também nunca foi empecilho. ''Quando era criança, não percebia a diferença de altura. Somente conforme fui ficando moça, vi que era menor que as meninas. Mas sempre levei na esportiva e nunca deixei de fazer nada. Para mim tudo é tão natural, que acabo esquecendo destes detalhes. Acho que quando nasci, Deus resolveu tirar um pouquinho da minha altura e do tamanho dos pés para me agraciar com o restante, pois sou muito realizada na minha vida.''

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