'Fomos mantidos em cárcere privado'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de fevereiro de 1999
Osmani Costa 
Centenas de pessoas - entre condutores de automóveis e de caminhões e passageiros de ônibus - ficaram retidas, das 15h30 às 23 horas de anteontem, no protesto realizado pelos índios e por proprietários rurais do distrito de Lerroville (zona sul de Londrina), que reivindicam o asfaltamento de uma estrada. Entre eles estavam cerca de 40 passageiros de um ônibus da Viação Garcia, que saíram às 14h30 de Londrina com destino a Curitiba, onde chegariam às 20h30.
O ônibus, que era dirigido por Denival Marra, só chegou na capital às 5h30 de ontem, com 9 horas de atraso. Fomos mantidos em cárcere privado, sem podermos sair além do cordão de isolamento feito com pneus velhos e madeira em chamas. Não questiono a reivindicação dos que protestavam, mas o que me deixou preocupado foi a sensação de abandono pelo poder público, comentou ontem o vendedor Gilson Martins Davoglio, 34 anos, um dos passageiros do ônibus.
Ele contou que o momento de maior apreensão ocorreu quando os índios ameaçaram, aos gritos, virar o ônibus e furar os pneus. Os índios estavam bebendo muito e bastante revoltados, apesar de desarmados. Na verdade, acredito que eles estavam servindo de massa de manobra dos fazendeiros daquela região. O pior de tudo foi o sentimento de impotência, de ter que ficar ali parado dentro do ônibus sem poder fazer nada.
Segundo Gilson Davoglio, um fato mais sério e lamentável só não aconteceu por causa da presença dos profissionais da imprensa. A aposentada Maria Amélia Raven, 75 anos, também estava no ônibus interceptado. Fiquei muito apreensiva e cheguei a sentir medo, quando vi aqueles nativos de aparência rústica que ainda não conhecia. Eles estavam bêbados e riam à toa, como se estivessem felizes por terem conseguido parar os veículos. Ela desistiu de seguir viagem e voltou para Londrina trazida pelos filhos. Não vi armas e nem fui ameaçada pessoalmente. Mas fiquei nervosa e tive uma elevação da pressão arterial. Já fui ao médico, tomei remédio e agora estou bem.


