Antônio Lopes da Silva, 55 anos, seis filhos, morador do Jardim João Turquino (zona oeste de Londrina). Ex-porteiro, desempregado por dois anos e meio, ele só viu a fartura voltar à sua mesa quando aprendeu um novo ofício: o de eletricista predial. Foi preciso apenas um mês de aulas, num programa municipal de capacitação, para que Silva conquistasse a tão sonhada vaga no mercado de trabalho e, com uma renda mensal de quase R$ 500, recuperasse a capacidade de sustentar a família.
O operário foi escolhido para representar as ações do programa Fome Zero implementadas pela Prefeitura de Londrina, diante do ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à fome, José Graziano. O ministro esteve ontem na cidade para assinar um protocolo de intenções referentes ao Fome Zero. Na cerimônia assistida por centenas de autoridades, entre eles o deputado federal Paulo Bernardo Silva declarou: ''Espero que as pessoas que se encontram na mesma situação em que eu estava também batalhem para voltar a caminhar com os próprios pés''.
Essa também foi a intenção frisada por Graziano, ao explicar que o Fome Zero vai além de ações emergenciais. ''Teremos conseguido implantar uma política de segurança alimentar quando os cidadãos comerem com seus próprios recursos, e não por meio de caridade'', sentenciou. Dentro dessa diretriz, o ministro louvou o modelo de combate à miséria implantado em Londrina uma das três cidades brasileiras que, segundo ele, formam a vanguarda do programa Fome Zero. ''O programa nacional pretende fazer, em 2004, o que Londrina já está fazendo hoje'', elogiou.
De acordo com a secretária municipal de Assistência Social, Maria Luiza Rizotti, o modelo local privilegia a articulação entre diversas secretarias e ações estruturais, como programas de geração de renda e capacitação profissional. A secretária destacou que os programas sociais têm R$ 17 milhões orçados em 2003, representando quase 7% da receita do município. Com duas mil famílias beneficiadas pelo Cupom de Alimentação, cujo valor é de R$ 50,00, a meta da secretaria é atingir três mil até o final do ano.
Ontem, o prefeito Nedson Micheleti (PT) assinou a lei municipal que estabelece a criação do Comitê Municipal de Gestão do Fome Zero, formado por 21 membros um terço do poder público e dois terços da sociedade civil. O grupo passará a responder pela coordenação e articulação do programa em Londrina. Uma das ações do Comitê será a seleção dos agricultores aptos a comercializar alimentos diretamente para o Fome Zero.
A compra de alimentos cultivados por produtores locais é um dos itens contemplados na carta de intenções assinada por Graziano, que prevê ainda a criação de um banco de alimentos e linhas de crédito ao pequenos produtores. O ministro adiantou que a assinatura dos contratos será iniciada ainda este mês, e que cada produtor poderá receber até R$ 5 mil em sistema de compra antecipada. ''Queremos incentivar aquele produtor pequenininho, que muitas vezes não tem crédito suficiente nem para chegar na porta do banco'', declarou.
O programa vai beneficiar agricultores familiares, cooperativas de pequenos produtores e hortas comunitárias. Graziano ressaltou que o projeto vai possibilitar a compra de alimentos sem necessidade de licitação. ''É uma regra para a qual precisamos abrir uma exceção. Hoje, é preciso licitar até a compra de um pé de repolho. E quem vence a concorrência são os grandes supermercados'', exemplificou.

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