Fome ronda a maior reserva do PR
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de novembro de 1997
Paulo Pegoraro Cascavel 
Edson MazzettoLavoura incipienteÍndios de Nova Laranjeiras perambulam recolhendo restos dos brancos; apenas 40 dos 7,7 mil alqueires são cultivados pela tribo que reivindica a cessão de maquinário para mecanização de 200 alqueiresAqui muito horrível é a forma simples que o cacique José Olíbio, 56 anos, utiliza para expressar a situação da Reserva de Rio das Cobras, a maior do Paraná, no município de Nova Laranjeiras, na região Centro-Oeste, onde estão 2.248 caingangue e guarani, segundo a Funai (de acordo com o cacique são 2,7 mil). A reserva fica a 10 quilômetros da cidade, onde muitos índios perambulam, catando restos jogados pelos brancos, e à margem da BR-277, onde vendem artesanato, parca e praticamente única fonte de renda.
Na Reserva de Rio das Cobras não tem ocorrido ocupações por colonos ou retirada ilegal de madeira. O cacique José Olíbio, que é pai de seis filhos, diz que o principal problema é a parte agrícola, colocando-o acima da saúde. A desnutrição é geral entre os índios da reserva. Neste ano, o caigangue e guarani colheram apenas 3 mil sacas de milho, além de feijão e arroz, apenas para consumo próprio, em somente 40 dos 7,7 mil alqueires (ou 18,6 mil hectares) da reserva.
Há apenas um trator, utilizado por todos, e os índios querem pelo menos mais um equipado e outras formas de apoio para que possam mecanizar 200 alqueires. Parte agrícola faz parte de saúde. Saúde médico dá jeito, remédio dá jeito. Problema é índio com fome, e comida vem da agricultura, diz o cacique. Existe na reserva um posto de saúde da prefeitura, que também mantém quatro escolas (há mais uma da Funai).
José Olibio estende seu raciocínio sobre a desnutrição: Criança já nasce com fome. Menina casa, e aí piora desnutrição. Tem filho, e filho nasce com mais fome. Por isso, a solução está na parte agrícola. A venda de artesanato pouco representa para as mais de 500 famílias da reserva, que enviam geralmente crianças e mulheres para a margem da BR-277 para a venda de balaios, arco, flexa e outras peças que vão decorar a casa de viajantes que se dispõem a comprar.
Outros índios vão para a cidade de Nova Laranjeiras, esperando alguma ajuda dos brancos. É comum vê-los com sacos de estopa nas costas, nos quais carregam quinquilharias desprezadas pela população. O secretário de Administração da Prefeitura, Sandro Veronese, assegura, porém, que eles não são fonte de problemas e concorda que o grande drama deles é a desnutrição.


