Em 1952, apenas quatro anos após ter sido criada, a Folha passa de semanal para a condição de jornal diário. É o auge da cafeicultura. As safras são metade do café limpo produzido no Brasil, um quarto da produção mundial. Mas a região cafeeira viveria, no dia 5 de julho, uma geada ‘‘muito forte’’, como anotou em um dos seus diários o cafeicultor Wilson Baggio, de Cornélio Procópio.
Outra geada ‘‘muito forte’’ voltaria a abalar a economia cafeeira em 31 de julho de 55, e no dia 17 de junho de 58 ocorreu geada-negra, durante o dia, conforme recorda Baggio. Porém, apesar das geadas, e também de algumas secas, o progresso da cidade, reflexo da economia forte da região, continuava. Podia ser medido na agitação diária do aeroporto, o terceiro em movimento de aeronaves no País.
TestemunhoAinda trabalhando no aeroporto, Dikran Balikian, funcionário do Departamento de Aviação Civil DAC) na função de fiscal da movimentação de aeronaves, lembra que Londrina possuía, naquela época, a maior base de táxis aéreos da América do Sul. Por isto, dezenas de aviões lotavam diariamente o pátio do aeroporto. Fora as empresas de táxi aéreo como a Imperial, de Belo Horizonte; TAL, Reta e Star, de Londrina; BOA, de Curitiba e outras, operavam com vôos diários as empresas Real-Aerovias Brasil, Vasp, Varig, Cruzeiro.
Dorico da SilvaDikran continua no aeroporto, fiscalizando aeronaves civis‘‘Londrina era a maior sede de Beeth Bonanza (monomotor, muito usado pelas companhias de táxi aéreo) da América Latina, e por isso até um diretor da indústria fabricante de Bonanza veio aqui’’, recorda Dikran, lembrando-se ainda de que a Real-Aerovias mandou fazer um hangar (existente até hoje, na beira da pista), para manutenção de seus aviões Douglas DC-3 e Convair.
Ele explica o fenômeno causador de tanto movimento aeronáutico na época: ‘‘O Norte do Paraná não tinha estrada asfaltada, os ‘táxis’ saíam daqui a Paranavaí, por exemplo, e iam apanhando passageiros onde estivessem, fosse em Maringá, Alto Piquiri ou Umuarama. Deixavam um aqui, outro ali, e iam pegando outros passageiros. Geralmente saíam e voltavam lotados.’’ Além dos passageiros que usavam táxi aéreo para se locomover a grandes distâncias no Paraná, já naquela época muitos cafeicultores paranaenses tinham negócios no Centro-Oeste (Mato Grosso, que então englobava o depois desmembrado Mato Grosso do Sul), para onde dirigiam seu espírito de pioneirismo. Eles também recorriam aos táxis aéreos e aos vôos comerciais, que chegavam a botar no pátio do aeroporto de seis a oito aeronaves ao mesmo tempo.
EvoluçãoA Folha já não era, desde 50, um jornal trabalhista, ou Getulista. Em 52, João Milanez, fundador do jornal, desfizera a sociedade, comprando a parte de Correia Neto, primeiro diretor de Redação. E o jornal passava a ter oito páginas, impressas na rotoplana recém-adquirida, que imprimia 2 mil exemplares por hora, ou 10 mil jornais por dia (quatro páginas de cada vez, frente e verso), que era a tiragem total.
Em 1956, outro passo importante é dado: Milanez adquire a primeira rotativa, de origem alemã (igual, guardadas as proporções, à que o jornal O Estado de S. Paulo, o ‘‘Estadão’’, possuía), com capacidade para rodar 5 mil jornais de 16 páginas por hora. A tiragem era de 20 mil diários, de circulação regional. A Folha se instala em sede própria no Edifício Bosque, onde ainda se encontra.
FlageloGeada sempre foi um flagelo, e não está comprovado que uma geada forte ocorra em média de 10 em 10 anos, contrariando a crença geral. Mas, devido à repetição do fenômeno em anos anteriores, procurava-se uma prevenção. Com esse objetivo, a Folha noticiava que, em 5 de julho de 1955, chegava a Londrina uma equipe do Exército, para demonstrar uma novidade: a prevenção de geada por fumigação. Geou forte no mesmo mês.
Esse sistema não daria certo, nem é recomendado, porque a fumaça deriva à noite. Você faz neblina aqui, o vento leva para longe, para os fundos de vales. Em outra ocasião seria tentada uma nova experiência, por um cientista que, dizia-se, até fazia chover no Nordeste. Ele veio, patrocinado pelo IBC, mandou fazer uma grande fogueira. Tinha um misterioso ‘‘elemento X’’ que afastaria a geada. Foi um fogaréu, mas a fumaça derivou, não protegeu nada. Esta é outra história, que ainda contaremos nesta série. A história da Folha está intimamente ligada à saga da cafeicultura; o leitor encontrará muitas vezes, nesta série, referências ao café. (Continua domingo.)AugeNos anos 50-60, Londrina teve o terceiro maior movimento de aeronaves do Brasil. A foto, feita por Dikran, é de 57
Jota Oliveira

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