Na tarde da última terça feira (14/02), o repórter da FOLHA escutou, por acaso, em uma lanchonete na Rua Pará (Centro), comentários de que um rapaz estaria pedindo socorro a diversas pessoas. Ele dizia que sua mulher estava prestes a ter um filho e ele não teria como levá-la ao hospital. Por coincidência, no dia anterior a FOLHA havia noticiado que esse golpista estaria agindo na região central de Londrina.
Funcionárias da lanchonete apontaram o suspeito, que passou a ser seguido pela reportagem. Em apenas 30 minutos ele abordou 9 pessoas, sempre pedindo dinheiro para levar a mulher, em trabalho de parto, para um hospital. Andando rápido, ele parecia escolher as vítimas aleatoriamente, preferindo pessoas que estavam descendo de seus carros.
O drama que é relatado a seguir começa na Rua Pará, em frente ao Colégio Mãe de Deus, onde o golpista abordou dois motoristas, os quais saíram caminhando rapidamente, sem dar muita atenção ao rapaz. Dali ele desceu em direção à Rua Professor João Candido e parou por uns 10 minutos para comer um salgado em um bar. Depois, virou à esquerda e caminhou uma quadra até a Rua Goiás. Nesta quadra abordou mais dois motoristas, que negaram ajuda. Sem insistir, ele continuou a caminhada.
Na Rua Goiás, ele abordou um senhor que lhe deu orientações e não quis dar dinheiro nem carona. Então, o rapaz foi em direção à Rua Pernambuco, onde falou com uma senhora que estava com muitas sacolas. Ela também negou ajuda e ele seguiu o seu caminho.
Sem que o golpista percebesse, a FOLHA conseguiu conversar com essa senhora. Ela estava muito assustada e tremia bastante. ''Ele me disse que precisava de dinheiro ou carona, porque a esposa estava dando a luz em um estacionamento aqui perto'', relatou. O susto pode ser atribuído à maneira brusca como ele aborda as pessoas.
De volta à Rua Pará, ele entrou em um salão de beleza. ''Ele chegou apavorado. Até nos assustou. Disse que trabalhava em um estacionamento aqui perto e precisava de um carro para levar a mulher ao médico. Falei que não tinha carro, ele apontou para um veículo que estava estacionado e eu expliquei que era de uma cliente. Então ele saiu e foi para a floricultura aqui ao lado'', contou a cabeleireira Fátima Moscardi.
Depois de contar a mesma estória na floricultura e não receber atenção, ele foi até uma publicitária que passava pela rua. Com boa vontade, ela acreditou no rapaz e topou ajudá-lo. No momento em que caminhava com ele até o suposto estacionamento onde estaria a mulher em trabalho de parto, uma viatura da Polícia Militar (PM), que fora acionada por meio do telefone 190 pela reportagem da FOLHA, interceptou o golpista.
''Meu Deus, ele chegou demonstrando estar muito aflito, pedindo socorro para levar a esposa à maternidade. Eu disse que então levaria a mulher para a Maternidade Municipal, mas ele disse que tinha que ser para o Hospital Zona Norte (HZN). No desespero, eu concordei, porém queria ver a mulher dele antes. Estávamos indo para o estacionamento quando a polícia chegou'', contou a publicitária.
O rapaz estava sem nenhum documento, mas disse que se chama Marcelo Messias Vieira, tem 31 anos e é pai de três crianças. No bolso dele a polícia encontrou um cachimbo utilizado para o consumo de drogas. Segundo ele, há nove anos, desde que conheceu o crack e tornou-se um viciado, perambula pelas ruas, sempre tentando arrumar dinheiro para comprar um pouco da droga. Ele paga R$ 10,00 por cada pedra de crack e não tem limite de consumo. ''Se eu conseguir R$ 200,00 num dia, compro tudo em crack'', contou.
Marcelo admitiu que tenta enganar as pessoas para conseguir dinheiro. Questionado sobre o que faria com a publicitária caso ela realmente o levasse até a Zona Norte, ele disse que tentaria, até o último momento, ganhar dinheiro e depois recusaria a carona.
''O que eu preciso mesmo é de ajuda. Tenho que largar essa maldita droga. Minha vida é só desgosto. Preciso de alguém que me interne. Já procurei, mas em todo lugar é preciso pagar pelo internamento e eu não tenho dinheiro. Se alguém quiser me internar agora, eu vou.''
Ele relatou que já esteve na Casa do Bom Samaritano e no Centro de Apoio Psicosocial Anti-Drogas (Caps-AD), mas a ajuda não foi suficiente. ''Nesses lugares eu tenho a liberdade de sair, aí vou atrás da droga'', explicou.
Como ninguém quis formalizar uma queixa de tentativa de extorsão contra Marcelo, ele foi liberado pelos policiais. ''Existem muitos casos assim em Londrina, ele não é o único a aplicar esse tipo de golpe. É preciso que a população fique atenta'', finalizou o soldado Oliveira, que atendeu a ocorrência.

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