Foi-se Dom Pablo, boêmio, poeta, poliglota, declamador
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sexta-feira, 21 de março de 1997
Apolo Theodoro 
Arquivo FolhaCom mil dragões!Paulo Ferreira da Silva, o Dom Pablo: milongas com São Pedro Com mil dragões! Com mil raposas incendiárias!
E o velho e pequeno Pablo se foi depois de 57 anos vividos neste mundão de Deus. Por falar em Deus, dá até pra imaginar a milonga dele com São Pedro na porta do Céu:
- Pelas barbas do profeta! Meu velho e bom Pedrão, na minha pequenina humildade estou apenas abismado! O velho e pequeno Pablo não tem nenhum merecimento para tal. Não obstante, fico imenso - como dizem os portugueses - agradecido por ter a minha pequena e insignificante vida ganhado o reino dos Céus. Ó Céus! Mas deixe eu entrar logo antes que Deus se arrependa e me despache para a infernizante casinha daquele senhor de chifres, aquele reles comprador de alma mentiroso e embrulhão.
Dom Pablo era um pouco de tudo. Desenhista gráfico, poeta e declamador, boêmio e cantor, poliglota e filósofo á- era muito engraçado ouvi-lo, lá pelas tantas, se dirigir ao dono do boteco com o seu inconfundível pedido:
- Me dá uma daquelas pequenas e encantadoras oncinhas. Mas sem as unhas, para não arranhar a minha preciosa e encantadora garganta. Talvez, quem sabe, daqui há pouco eu vá ter que declamar um poema para um coração necessitado - que pode ser o meu, é claro, rá, rá, rá, rá - ou cantar uma canção para alguém apaixonado.
Dava um pequeno gole - dizia que bebia devagar para não ficar de fogo depressa - e arrematava:
- Às vezes pintam em nossas vidas umas encantadoras musas que nos engravidam de poesia. E depois temos a necessidade inevitável de pari-las. Vinícius, Camões, também não ficaram imunes aos encantos dessas distintas senhoras. Dos franceses - só pra citar, Lamartine, Diderot - nem vou falar para não complicar a sua caligrafia.
Sobre o vício que acabou com seu fígado e do qual tinha se afastado nesses últimos anos, costumava dizer que bebia para ficar na posse absoluta da minha propriedade. Afirmava que nesse estado o Paulo desaparecia (Paulo Ferreira da Silva era seu verdadeiro nome) e aí surgia o velho e pequenino Pablo com o coração cheio de amor para com a humanidade.
Não se considerava modelo e nem incentivava ninguém a seguir o seu estilo de vida. Mineiro de Poços de Caldas, sonhou ser piloto da Esquadrilha da Fumaça, mas, se não voou, acabou dando uma pirueta na vida, virou desenhista e passou, como dizia, a empurrar a vida com um lápis.
Amante da leitura - Ler é um dever que faço cotidianamente com imenso prazer - na época em que os deputados elaboravam a Constituição de 1988, embora não botasse nenhuma fé nos constituintes, sonhava em ver a cultura ser privilegiada pela nova Carta Magna. Suas palavras:
- Um povo sem cultura não tem memória nem emoções. Vive à larga e ao Deus dará. Quando eu era criança diziam ser este o País do futuro. Não fizeram nada para tornar isso realidade. E, para que as crianças de hoje sejam as futuras donas deste País do futuro, a cultura é fundamental.
Embora nunca tivesse casado de papel, chegou a dividir teto e amor com algumas mulheres. E ele, que vivia afirmando que elas ainda o amavam, nunca teve dúvidas sobre o motivo pelo qual elas o abandonaram: os bares. Aliás, ele costumava repetir: Já perdi 3 mulheres por causa dos bares. Mas não mudava de vida:
- Existe coisa mais sublime que um bar? Encontrar os amigos, bater um papo descontraído, derramar lágrimas por algum amor perdido e impossível? E ali - com mil dragões! - rodeado por uma platéia atenta declamar sua próprias imbecilidades numa poesia de pé quebrado?
Um dia ele apareceu falando no Grunfas - segundo ele, um marciano verde que, no entanto, só seria apresentado aos amigos no dia em que a humanidade aceitar a evidência de que há vidas inteligentes noutros planetas. Ele dizia, cheio de mistérios, que o marciano estava aqui numa missão: transformar a cabeça dos homens, acabar com as guerras, com as crianças abandonadas e, com a sua cor verde, devolver o verde da terra.
Quando lhe diziam que quem bebe não merece crédito nem tem responsabilidade, ele respondia gargalhando: Se homem que bebe não merece credibilidade, Jânio Quadros não seria prefeito de São Paulo. Tripudiando de si próprio, reclamava que ninguém o levava a sério e completava: Todos acham que sou um pequeno palhaço. Rá, rá, rá, rá! O diabo é que sou, mas gostaria de ser um grande palhaço.
Se dizia uma pessoa feliz porque tenho dentro da minha cabeça, vejamos... algumas idéias. E ter idéias mantém um homem vivo. Mas Dom Pablo morreu. No último sábado, antes de se internar para a morte, disse numa reunião familiar que iria viver até os 90 anos, se Deus quiser. Mas Deus não quis e Dom Pablo foi enterrado ontem de manhã. No seu túmulo, muito provavelmente, a família deverá inscrever o epitáfio que ele já deixou pronto antes de morrer:
- Vítima de um mal hepático, deixou este mundo caótico, ao morrer dizia enfático, vai pro céu mais um cirrótico.


