Foi operar estrabismo. Está em coma
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segunda-feira, 31 de março de 1997
Luka Morais 
Estamos vivendo um pesadelo e esperamos acordar a qualquer momento.
O tipógrafo José Olímpio Machado Neto e sua mulher, Ivonete Aparecida França, moradores do jardim Tupi, em Cambé, estão em desespero. O filho mais velho do casal, Wilcrai Faria Machado, 14 anos, foi submetido a uma cirurgia para correção de estrabismo no Hospital de Olhos de Londrina (Hoftalon), na última terça-feira. O que deveria ser uma simples cirurgia acabou se complicando. O garoto sofreu parada cardíaca e está internado em coma profundo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa.
O Hoftalon divulgou boletim médico informando que Wilcrai foi submetido a cirurgia sob anestesia geral, a cargo do anestesista Fernando Rigobelo Júnior, com o cirurgião Agenor Paes de Mello e o auxiliar Wilson Sérgio Ferre Mackert. A cirurgia começou às 9 horas e durou uma hora e meia.
De acordo com o boletim, foram adotados todos os procedimentos de avaliação pré-cirúrgica no paciente, que não revelaram qualquer contra-indicação. O anestesista Fernando Rigobelo Júnior explica que, pela idade do menino e a necessidade da intervenção cirúrgica nos dois olhos, a melhor indicação foi de anestesia geral. Ele destaca que das 13.500 cirurgias realizadas no Hoftalon, esse foi o único caso de complicação operatória.
Segundo informações do superintendente da Santa Casa, Fahd Haddad, Wilcrai já chegou ao hospital em coma e seu estado é bastante grave. Ele está respirando com auxílio de aparelhos.
O pai de Wilcrai conta que o menino nunca teve problemas de saúde mas que o estrabismo bilateral estava dificultando a visão e atrapalhando os estudos. Na última terça-feira, o garoto levantou cedo e ajudou o pai a limpar o carro, que o levou ao hospital. Retornaria para casa na hora do almoço. Os irmãos, um com seis e outro com sete anos, perguntam o tempo todo quando ele volta e nós não sabemos o que responder, diz a mãe.
José e Ivonete contam que foram chamados pelo anestesista Fernando Rigobelo Júnior e informados sobre a parada cardíaca. O médico disse que não sabia o que aconteceu. Mas garantiu que estava tudo bem com ele, lembra a mãe. O menino foi transferido para a Santa Casa e, lá, um enfermeiro, ao ser questionado pelos pais sobre um inchaço no tórax do menino, contou que ele teve uma costela quebrada e o pulmão perfurado durante a massagem feita no Hoftalon para reanimá-lo.
Inconformados, os pais tentam encontrar um motivo para o drama que vivem. Criticam a demora para a chegada da cardiologista ao local onde foi feita a cirurgia - segundo eles, a médica Luzia Oshiro apareceu 40 minutos após a parada cardíaca. Afirmam que se o Hoftalon estivesse mais aparelhado o menino não teria entrado em coma e chegam a cogitar que, se fossem ricos, o filho estaria recebendo tratamento diferenciado. A cirurgia foi feita pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
O proprietário do Hoftalon, Nobuaki Hasegawa, responde que, quando se trata de procedimento cirúrgico, não há qualquer diferença no tratamento dispensado a pacientes do SUS ou a particulares. Tecnicamente, não há como privilegiar um em detrimento de outro. Os equipamentos, o centro cirúrgico e os paramentos são os mesmos.
O anestesista Rigobelo Júnior afirma que foram adotadas todas as medidas para reanimar o paciente e garantir a oxigenação do cérebro. A fratura da costela e a perfuração do pulmão, segundo ele, foram o mal menor diante da situação. Aconteceram durante a massagem para reanimar Wilcrai. O anestesista afirma que a cardiologista Luzia Oshiro chegou ao hospital apenas 10 minutos após ter sido chamada. Segundo ele, o paciente foi transferido para a Santa Casa com frequência cardíaca e pressão arteriais normais.
Ainda de acordo com o anestesista, não houve choque anafilático. A parada cardíaca ocorreu no final da cirurgia e pode, segundo ele, ter sido decorrente de problemas não detectados nos exames feitos pelo paciente ou relacionados às drogas usadas durante a operação. O que houve foi uma fatalidade, um caso raro.


