Curitiba - Em 1991, Maria (nome fictício), hoje com 32 anos, foi estuprada em uma cidade de Santa Catarina. A jovem morava com os pais e o irmão mais velho. A agressão ocorreu em dezembro, um mês antes de ela prestar vestibular, quando voltava do cursinho. Ela perdeu a virgindade com dois homens que jogaram a vítima dentro de um carro. Em entrevista à FOLHA ela fala pela primeira vez sobre o crime.

Como foi o dia que sofreu a agressão?
Eu fazia cursinho em outra cidade. Descia do ônibus e tinha que de andar três quadras para chegar em casa. Sempre ia com um rapaz que fazia faculdade na mesma cidade. Naquele dia, ele não foi. De repente, parou um Fiat 147 com dois homens. Um devia ter 18 anos e outro uns 20. Lembro de um deles me pegando e dizendo: ''Entra aqui senão nós te matemo (sic)''. E me jogou para dentro do carro.

Eles estavam armados?
Tinham um revólver. Me levaram para uma praia deserta e me estupraram. O primeiro usava um crucifixo no pescoço. Enquanto estava em cima de mim falou: ''Minha irmã morreu assim''. Eu respondi: ''Mas eu não tive culpa disso''. Ele saiu e veio o outro para também me estuprar. Eu falei: ''Pelo amor de Deus não faz nada comigo que vou fazer vestibular''. A partir disso lembro de flashes. Depois que terminaram me deixaram na mesma esquina.

Como foi quando chegou em casa?
Foi a primeira vez que vi meu pai chorar. Ele ficou desesperado. Fui forte no momento, mas depois desabei e chorei muito.

Você prestou queixa na delegacia?
Meu pai olhou para mim e disse: ''Filha, você quer levar essa história pra frente ou prefere acabar aqui?''. Decidi que iríamos na delegacia. Eu ia me expor, mas queria enfrentar aquilo. Acho que se as pessoas não falarem, nunca ninguém vai ser pego. No meu caso não foram presos, mas tentei.

Você sofreu preconceito?
Nas primeiras semanas, eu tinha medo de sair na rua. Olhei no espelho e falei: ''Fiquei viva. Tenho de superar isso e pronto''. O preconceito maior foi quando as pessoas perceberam que eu estava bem. Não entendiam aquilo. Passei o Ano Novo na praia com minhas amigas. Algumas pessoas falaram que eu havia gostado (do estupro), pois já estava me divertindo na praia. Mas eu tinha 18 anos e devia continuar com minha vida. Depois de um mês passei no vestibular. Não podia passar o resto dos dias chorando. Segui em frente.

Depois de quanto tempo você teve a primeira relação sexual?
Cinco anos depois, quando eu tinha 23. Eu tive uma experiência tão dolorosa com 18 anos, que eu quis esperar a pessoa certa, ou seja, um namorado, uma pessoa que eu tivesse um carinho especial.

Você acha que aquela agressão ainda te prejudica?
Não. Hoje em dia eu até esqueço. Mas sou mais cautelosa.

Falar sobre a agressão te perturba?
Não. Hoje eu falo disso como uma lição de vida, como um alerta. Poderia ter tido vários medos. Poderia ter ficado na minha cidade, mas me mudei para um lugar maior para crescer. Moro sozinha. Sou uma pessoa estabilizada profissionalmente, sem medo nenhum. Vou à luta e não tenho receio.

O que sente pelos agressores?
Chega a ser estranho, mas quanto mais crio rancor é pior pra mim. Eu perdoei essas pessoas. Eles não pagaram, pois não foram presos. Mas eu acho que Deus pode ter mandado uma filha mulher para cada um, e eles olham pra ela e lembram do que fizeram. Espero que não tenham feito aquilo com mais ninguém.

mockup