Fogo e geada, o flagelo paranaense há 50 anos
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quarta-feira, 04 de setembro de 2013
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
Ortigueira - Na primeira edição da Geografia Física do Estado do Paraná (1968), Reinhard Maack informa que o incêndio de 1963 destruiu 964.900 hectares, ou 9.649 km², principalmente de "matos secundários e reflorestamentos", conforme dados oficiais. Já o levantamento da Escola de Florestas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), referência para o Instituto Ambiental do Paraná (IAP), corporações de bombeiros e empresas de reflorestamento, relaciona dois milhões de hectares queimados, equivalentes a 10% da superfície estadual.
Estiagem prolongada e cafezais ressequidos após a geada facilitaram a expansão do fogo, que começou na segunda quinzena de agosto e cessou entre 18 e 20 de setembro de 1963, após atingir mais de 100 municípios em quase todas as regiões.
Ao longo do curso médio do Rio Tibagi o incêndio teve a maior proporção, quando as chamas em Curiúva saltaram o Rio das Antas e, avançando por Telêmaco Borba, se transformaram numa frente de 80 quilômetros que chegou à Fazenda Monte Alegre, ali queimando pinhais nativos e 36 mil hectares reflorestados com essências diversas, da Indústria Klabin.
Abrangendo área superior àquelas de incêndios florestais catastróficos na Austrália e Estados Unidos, o fogo no Paraná ainda agregou a pior estatística: 110 mortos oficialmente, centenas de feridos, 5,5 mil casas destruídas e 5,7 mil famílias desabrigadas. Sem paralelos no exterior, os números corresponderam à campanha por ajuda: "Socorro ao Paraná em flagelo".
Um dos mais extensos municípios do Estado, entre o Nordeste e o Centro, Ortigueira teve a maior parte atingida e morreram 26 pessoas. "Morreu muita gente. Eu ajudei a enterrar 22 pessoas", afirma 50 anos depois Joaquim Bernardo dos Santos. Conta que estava com 25 anos e no trajeto entre Serra Grande e Natinguí, juntamente com o sogro, deparou com os corpos. E nos arredores, mais de 20 pessoas precisando de socorro. Levados a Natingui (distrito), os mortos foram enterrados numa única cova.
Provavelmente, o incêndio estendeu-se pelas duas margens do médio Tibagi a partir de cinco mil alqueires de matas e plantações que arderam ao Sul de Londrina, em Tamarana, Guaravera e Paiquerê. Transpôs os ribeirões Taquara e da Volta, matando animais e obrigando moradores a fugir, informou a FOLHA em 17 de agosto ("Incêndios semeiam o pânico nas regiões rurais do Paraná"). Chegou até na Serra do Leão, onde estava a família de Expedito Ribeiro, à época rapaz e hoje uma das memória do fato.


