Toda vez que se sentava ao volante, a professora aposentada Maria Del Carmen Giacomini sentia a boca seca, o coração acelerado. O carro tomava proporções gigantescas e parecia ter vontade própria. Como ela, muitas pessoas têm os mesmos sintomas. É o que os psicólogos chamam de fobia de dirigir.
Dirigir em um trânsito como o nosso não é nada fácil. A frota em Londrina hoje, segundo dados de agosto fornecidos pelo Detran, é de 228.961 veículos, sendo que destes, 139.854 são carros.
O grande número de veículos, associado às ruas estreitas, avenidas movimentadas e motoristas nem sempre educados, piora a situação de quem já tem medo de dirigir. Andar a pé, pegar ônibus lotado, depender dos outros para se locomover, nada disso é tão ruim quanto a sensação de se sentar ao volante de um carro. Mesmo assim, muitos ainda se negam a procurar tratamento.
A professora Maria Del Carmen renovou a habilitação durante 25 anos, sem nunca ter dirigido. Dependia do marido para levá-la aos lugares ou ia de ônibus. Viu os filhos crescerem, tirarem suas habilitações. Ela tentou voltar à auto-escola algumas vezes, na esperança de superar o medo, mas não dava certo. E continuava a depender dos outros. Um dia, a professora leu uma reportagem sobre a terapia e resolveu fazer. ''Não dependo de ninguém agora'', afirma satisfeita, dois anos após ter concluído o tratamento.
A psicóloga Elvira Gross, uma das poucas profissionais em Londrina que trata de forma específica essa fobia, explica que ''o medo é uma emoção produzida pela percepção de um perigo iminente ou presente, sendo normal e até mesmo saudável quando se manifesta em situações apropriadas, desempenhando um papel importante no processo de sobrevivência do ser humano''.
Quando esse medo é excessivo transforma-se em patológico. Este tipo se diferencia do medo comum por não ter uma causa objetiva ou base na realidade e por provocar uma aflição muito grande.
Segundo Elvira, as pessoas que sofrem dessa fobia são competentes, mas também muito exigentes consigo mesmas e por isso têm medo de serem avaliadas, julgadas. São pessoas com alto grau de ansiedade antecipatória, ficam imaginando as dificuldades que possam vir a ter. ''Elas temem não conseguir realizar funções comuns no trânsito como trocar a marcha no momento certo, não deixar o carro morrer, não conseguir arrancar numa subida, ouvir ofensas e xingamentos, não conseguir passar entre dois carros, se perder por não conhecer o trajeto, causar acidentes por causa do nervosismo.'' Como reflexo, as pessoas apresentam fortes reações como tremor, sudorese, frio no estômago, enjôo, falta de ar e batimentos cardíacos acelerados.
As pessoas com medo de dirigir, em geral, sentem vergonha em admitir isso e inventam várias desculpas. A psicóloga conta histórias usadas por seus pacientes, como deixar para sair por último de uma festa para poder pegar um táxi, andar com uma chave de carro na bolsa, como se dirigissem, e ainda quem, no serviço, sempre diz que está muito ocupado quando pedem que saiam com o carro da empresa. Isso sem contar as pessoas que, mesmo sabendo do tratamento, levam meses para chegar até a clínica ou que ficam marcando e desmarcando o horário do atendimento, por medo de enfrentar a fobia.
Ao contrário do que se pensa, muitos homens são acometidos por esse medo, embora a grande maioria seja de mulheres, na proporção de oito para dois. Elvira diz que isso pode ser devido ao fato de que, até pouco tempo, a função de dirigir era específica dos homens. Também, durante a infância, os meninos são estimulados desde cedo, brincando com carrinhos, dirigindo no colo dos pais. As meninas, em geral, não têm muito interesse por isso, brincam com bonecas e panelinhas. Justamente por esse fator cultural, para os homens, o não dirigir se torna pior e mais constrangedor. A psicóloga ressalta que essa sensação de impotência deixa a auto-estima da pessoa muito baixa. Segundo dados coletados entre os pacientes da clínica, a faixa etária mais afetada pelo medo de dirigir fica entre os 31 a 45 anos, sendo que 70% das pessoas já têm habilitação. Essas pessoas podem ou não ter vivenciado alguma experiência desagradável dentro de um carro no passado, como um acidente.
O tratamento específico consiste em sessões no consultório do psicólogo, em grupo ou individuais, nas quais a pessoa vai aprender a identificar as situações de medo e fará treinos para relaxamento. Na segunda etapa, são desenvolvidas paralelamente as sessões em consultório e também o treinamento ao volante, em que a pessoa vai sendo gradativamente exposta às situações temidas. Esse treinamento é feito com o carro de uma auto-escola, um instrutor treinado para esse atendimento e a psicóloga, que do banco de trás vai conversando e orientando a pessoa fóbica. Depois de superado o medo, a pessoa é orientada a praticar diariamente com o próprio carro, fazendo percursos conhecidos no início e aumentando o nível de dificuldade aos poucos. Quem não tem habilitação, deve primeiro fazer todas as provas da auto-escola para só então praticar sozinho, mas o medo já deverá estar superado e a pessoa não terá problemas em fazer as provas.

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