O dia amanheceu ensolarado, quebrando a tradição da chuva miúda que parece se juntar às lágrimas da saudade na data em que se homenageiam os mortos. Unido ao colorido das flores, que se exibem nas bancas e sobre os túmulos, e ao das roupas, a cada ano mais distante daqueles tons escuros de antigamente, o sol brilha e aquece os corações, sem nenhum preconceito. Tanto no cemitério da região central de Londrina, o São Pedro, quanto no da região norte, o da Saudade, o brilho e o ar de festa são os mesmos.
As flores, nos dois cemitérios, predominam sobre tudo o mais, com seus aromas penetrantes e vistosos matizes de cores. No cemitério São Pedro, a preferência é pelas flores naturais. No da Saudade, pelas artificiais. Na banca de Weber Suguyama, em frente ao cemitério da região central, o movimento foi intenso ontem, pela manhã. ''No dia de Finados, as vendas crescem cerca de 30%'', confirma. Mas reclama que, este ano, só fecharam meia rua (Avenida JK) e isso acabou provocando alguma confusão e trazendo desconforto para os clientes. Além de comercializar seu produto tanto no atacado, quanto no varejo, Suguyama é produtor dos crisântemos que vende. ''Só que é um mercado de temporada'', comenta.
Nos dois cemitérios, igualmente, as homenagens, o culto aos antepassados, se sucedem, como o pequeno Leonardo Hayashi, de 4 anos, está aprendendo a fazer. Os pais, Ruth e Linconl, acreditam que é importante passar essas tradições para os filhos. Simpatizantes da filosofia do Seicho-noie, acendem incensos para purificação das almas. O dia de Finados não tem um significado especial para eles, mas o aproveitam ''porque a cultura oriental já está de alguma forma incorporada ao catolicismo'', diz Ruth.
Mas há também a ''dedicação'' aos mortos, entes queridos que estão enterrados em outras cidades, muitas vezes distantes. Marly Zampieri, viúva há 4 anos, não pôde ir até onde o marido está enterrado, em Campo Grande (MS). Assim, veio ao cemitério São Pedro, acender uma vela em uma gruta que há ali, para esse fim. Mas nada de tristezas, ''porque é importante que fique tudo bonito e festivo para os que já se foram'', filosofa. No cemitério da Saudade, numa área mais reservada, denominada ''Cruzeiro'', flores, velas e incensos acumulam-se, causando um certo temor pela possibilidade de incêndio.
Em ambos os cemitérios também há muita gente jovem, que morreu cedo, vitimada pela violência. No São Pedro, o túmulo em que está enterrada Neila Ribeiro, assassinada em 1970, quando estava com 11 anos e se preparava para fazer a primeira comunhão, é muito visitado, independentemente da data. ''Vem muita gente pedir alguma graça em nome de Neila'', conta Maria do Carmo Ribeiro, madrinha da menina. ''Essas pessoas têm fé em sua alma e na força da sua pureza''. Maria do Carmo acredita que graças possam ser alcançadas dessa forma, mas ela mesma não usa esse meio. Prefere pedir de maneira geral e constante ''pela proteção divina, porque o mundo anda muito cruel'', uma lembrança em relação ao cotidiano que, sem dúvida, diminui a intensidade do brilho do sol, em qualquer data.

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